João,

não há guarda-sóis suficientes e, assim, precisamos dividir nossa sombra com a família ao lado – que sequer sabemos quem são. O mar não pode ser um mar de sujeira. Depois de nós, outros irão nadar, boiar, surfar. A areia da praia é para futebol, castelo, picolé, queijo, açaí, caldinho, coco, cerveja, amendoim, milho, frescobol, correria, calmaria, dominó. Moças olham rapazes que olham moças que olham moças que olham rapazes que olham rapazes e o amor se bronzeia igualmente em cada parte dos corpos. Pipas sobrevoam tudo, agoniadas. Cangas deitam, suavemente. Vende–se óculos de sol para os que olham. Vende-se chapéu para os cabeças-de-vento. Vende-se protetor solar para os sensíveis. Não vende-se relógio porque ninguém está atrasado. A gente pula as ondas onde elas ainda não são grandes para nos engolir. O mar é uma saudade. Por perto, fica pequeno; de longe, mostra-se enorme. O moço pobre anda descalço, a moça rica anda de plataforma. Mas pisam o mesmíssimo chão de areia fofa que os faz andar desgraçadamente engraçados. O velho e o menino têm medo do mesmo vento do fim de tarde, o sereno. Os amigos sorriem: maresia. Toca Calypso. Toca Caetano. Toca Alceu. Música que o vento leva para bem longe, quando estamos perto. E traz para perto, quando estamos longe. Quanto mais gente chega, mais espaço tem – a maré baixa na hora certa, que é para fazer caber. A praia é um país, filho. Quem fica olhando do camarote, da varanda, não sabe o que é praia. E quem tem praia sabe que varanda é muito pouco, quase nada.


Do seu pai,

Pedro