João, Irene e Teresa,

tentem fazer isso em casa. Sim: tentem. Afastem nossa mesa de centro cinza. Aquelas cadeiras coloridas. Tirem o coelho vermelho de perto da estante. Removam a poltrona roxa e o frigobar vermelho. Deixem apenas o sofá. É de lá que vocês irão saltar. Tudo pronto? Agora vamos ao salto.

Estudei numa escola pequena até os 14 anos. Escola Recanto Infantil. Esse nome incomodava um bocado aqueles alunos que teimavam em queimar etapas – os caras que aos 11 anos queriam ser donos do nariz, as meninas que aos 12 anos tinham certeza que eram mulheres feitas. Eu sempre fui um daqueles meninos que aproveitavam a sua própria idade. Por vezes era chamado de bobo por conta disso, por não querer repetir as peripécias dos tão amadurecidos colegas. Sempre fui medroso, vocês sabem. Depois do Recanto, fui para o Marista São Luís. Um colégio predominantemente careta, com valores religiosos bem definidos e pessoas muito, muito diferentes de mim em sua maioria. Havia muita gente rica, filhos. E seu pai, vocês sabem, não tem raízes fincadas nesses jardins. Achava estranho que, aos 16 anos, um colega chegasse dirigindo o seu próprio carro. Achava distante a realidade dos que se despediam repentinamente pois iam passar um ano em intercâmbio nos Estados Unidos. Achava assustador que as calças, sapatos e camisas de boa parte deles fossem quase sempre das mesmas lojas e, por sinal, caríssimos, inacessíveis para mim. No meio de uma realidade distante, tão distante, procurei olhar ao redor e encontrar meu mundo. Aprendi que é duríssimo fazer escolhas quando somos jovens. Injusto, até. Mas nesse caso, era preciso. A escolha era uma forma de sobrevivência numa selva onde eu, certamente, não era o leão. Foram três anos ouvindo muito sobre Marcelino Champagnat e pouco sobre Jean-Jacques Rousseau. Foi péssimo. Ainda assim, aprendi sobre abismo social. Foi ótimo. O que não aprendi sobre física (nunca vi uma aula completa em toda a minha vida); o que não aprendi sobre biologia (pela minha incapacidade de estar em dois lugares ao mesmo tempo e no horário da aula eu tocava na missa do colégio); o que não aprendi sobre química (o professor Guilherme me dava um sono desagraçado); o que não aprendi no quadro-negro, filhos, me foi ensinado por poucos amigos que, repentinamente, compunham o meu mundo inteiro – dentro deste outro mundo ao qual não pertencia. Eram poucos. Mas tão bons, tão bons, que estamos aqui, 25 anos depois, falando deles. Porque esse é o salto, filhos. Escolher é saltar. A minha escolha foi acreditar que ter esses amigos por perto seria, provavelmente, o melhor caminho que eu poderia seguir. O mais valioso. Ali, naquele momento, tivemos a ideia de fazer uma banda. A gente queria se divertir. No nosso mundo, uma regra fundamental: criar mecanismos de diversão que dependam pouco (ou nada) de dinheiro. A gente investiu toda a energia que tinha. A gente investiu todo o amor que tinha. A gente investiu tempo, talento e coragem. A gente fez mais amigos. E mais. E mais. E, ao notar, a gente estava num mundo novo, enorme, onde não importava a calça, o sapato, a camisa. Onde o intercâmbio acontecia quando um olhava no olho do outro e ouvia. E respeitava. O mundo ficou enorme. E já não era nosso. Era um mundo que a gente acreditava demais – sem saber que já existia. Estávamos em casa. Em casa. Afastamos a mesa de centro, a poltrona, as cadeiras, o coelho vermelho, o frigobar. No próximo dia 21 de novembro, vamos nos reencontrar, lá no Recife. Vamos, filhos. Venham comigo. Já estou em cima do sofá. Vamos saltar.

Do seu pai,

Pedro