João,

pense rápido.

O tempo, desgovernado, atropela vontades, respiros, pausas. Eu poderia dizer que o relógio, assassino, persegue o tempo e aumenta a correria. O ponteiro maior acelera. O ponteiro médio acelera. O ponteiro menor disfarça sua lentidão e, num piscar de olhos nosso, avança uma casa. Cada piscar nos leva a um horizonte novo – na volta dessa rápida escuridão. Corra, filho, corra. Ninguém espera mais. Avance duas casas. Ninguém deixa que você conclua o pensamento. Na primeira vírgula da sua fala, o interlocutor já está pensando mais na resposta que vai dar do que prestando atenção no que você (ainda) está falando. O telejornal (você não irá saber o que é isso daqui a dez anos, esqueça). Os jornais estão cada vez mais pobres de assunto. Textos são substituídos por duas ou três palavras que atraiam olhares desatentos dos leitores. Pouco importa. Geração skip, filho. Gente que não fica, mas passa pelas coisas, pelos outros, pelos cenários, por mais deslumbrantes que sejam. Pressa. Eu poderia dizer que o relógio persegue o tempo e aumenta a correria. Poderia. Não direi.
Pense rápido, filho. Desacelere agora mesmo. Nada é urgente – só gente. Corra da pressa. Corra, filho, pare. Pause. Veja o tempo. Observe. Ele passa suavemente por nós quando, finalmente, entendemos que o piscar de olhos é fundamental para que se enxergue melhor o próximo horizonte. Respire. Respeite o tempo do outro. Ouça. Pense rápido, filho. Amanhã pode ser cedo demais para começar algo novo. Volte duas casas. Sua vez.

Do seu pai,
Pedro.

 

p.s.: dia desses, li um texto maravilhoso de Juliana Cunha (aqui) sobre colocar espaço entre as coisas. Sim, é preciso (obrigado, Juliana). Entre olhos abertos-olhos cerrados-olhos abertos, é preciso respirar. Não pense frevo. Pense sinfonia, filho. Descarte a imagem de cima. Fique com essa aqui embaixo. Você e seu amigo Joaquim, hoje. Amigos amanhã. O tempo ainda não veio, mas já perdeu.