Irene,

nem sempre faça o que recomendo. Mas isso aqui, faça. Recomendo.
Tenha sempre à mão uma dessas garrafinhas de água com sabão ou não-sei-o-quê que produzem as bolhas de sabão. Por enquanto, deixe ali na estante, onde costuma guardar, onde sua vista alcança. Na adolescência, leve na mochila. Adulta, na bolsa. E na velhice, guarde silenciosamente no bolso do roupão – velhinhas ficam lindas de roupão, filha, coloridos, floridos, quase pijamas.
As bolhas de sabão são os extintores de incêndio das nossas angústias mais íntimas, apertos aparentemente insuportáveis. Das rupturas amorosas, decepções em quaisquer níveis, brisas profissionais desnecessárias (são tantas). Às vésperas da semana de provas, bolhas. No momento em que o rapaz diz que precisa pensar, bolhas. Se sua mãe e eu formos duros demais, bolhas. Quando o livro de Manoel de Barros terminar, bolhas. Depois das férias na praia, bolhas. Ao receber a notícia triste, bolhas. No desprender do melhor abraço, bolhas. Na ausência da chuva, bolhas. Em cada desventura, bolhas. 
Um sopro que sai da alma para expelir o que perdeu o direito de morar em nós. Sai. Sopra, filha. Recomendo.

 

Do seu pai,

Pedro

 

P.S.: E quando estiver feliz, filha, bolhas. Para não perder o costume.