Teresa,

parece fácil, para quem olha do alto. Mas basta deitar um pouco a vista, descer ao horizonte do chão frio, esse alento em tempos de seca, contemplar os mundos delicadamente menores, para enxergar o invisível. É difícil. Um pé, depois o outro – e enquanto o deslocamento de todo o planeta acontece, indo para trás suavemente, com a força que nos é possível fazer. Com o alcance que nossas pernas têm – nem mais, nem menos. A medida exata do (com)passo particular de cada caminhante e do seu caminhar. Mais um passo, empurramos o planeta para trás um pouco, depois outro pouco e, de pouco em pouco, o planeta gira todinho. Você vai aprender nas aulas de ciências, filha, que este movimento da Terra faz ponteiros girarem, marés subirem, ventos balançarem os cabelos das mangueiras, nuvens passarem sobre nossas cabeças de algodão, chuvas subirem jardins. A cada pequeno empurrão que você deu – no domingo, dia 16 de novembro de 2014, meu mundo escapuliu para trás deixando ponteiros atrasados, o futuro invisível, menor, e o ontem distante demais para que eu percebesse que, poucos segundos antes, poucos ventos e marés passados, você era uma bebê que não andava. E que justo agora, no instante em que presencio e filmo e vejo na tela e olho daqui, do horizonte do chão frio, tudo ao mesmo tempo, entendo que o tempo sequer existe. O tempo não passa de uma desculpa para a gente aprender a andar de novo – como se fosse a primeira vez.


Do seu pai,
Pedro