Irene,

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o que nos diferencia dos demais animais é o fato de sermos bípedes. Mas andar apenas sobre as duas pernas traseiras é uma arte. O cara que inventou isso deve ter sido muito respeitado pela macacada, lá no passado. O fato é que esses dias você tem tentado engatinhar. Sempre que chega ao chão, começa a sua disputa solitária: vai o joelho, fica o braço, ergue a cabeça, olha o brinquedo,  desconcentrou, começa de novo, joelho, braço, cabeça, olha lá, desconcentrou, vai de novo. No circuito, obstáculos gigantes. Sapatos, bolas, as cadeiras arranha-teto e o chão, esse terreno perigoso, cheio de surpresas. Hoje, ao enfrentar a prova dos dois metros rasos entre o seu tapete coloridoe a minha cadeira, resolvi encarnar o torcedor: estimulei, chamei, acenei, cantei, fiz coreografia. Cheguei até a ensaiar um grito de guerra que dizia "filhinha, cadê você, eu vim aqui" mas sua mãe gargalhou tanto, que parei. Você estava nos últimos cinquenta centímetros quando, no meio da maior euforia, noteique parecia abandonar a prova, sim, sim, estava abandonando, deixando a pista, o que houve?, tentei me comunicar via rádio, nada. Virou à esquerda e, em disparada, rastejou na direção do seu pato colorido de pelúcia. Tudo bem. Mas amanhã eu vou com uma vuvuzela, filha.

Do seu pai,
Pedro.