João,

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ontem você fez a coisa mais importante da semana –acho– bem ali, embaixo de um carro. A gente jogava bola –estou tentando fazer você gostar de futebol, mas sem espaços urbanos apropriados, como na minha época: ruas de barro, terrenos baldios e garagens de prédio vazias, está difícil. Assim, jogamos bem ali no quintal frontal do casal mais amado da paróquia, Juca e Pio. Você, Tomé, Dodó e eu, ali, jogando, brincando, uma alegria.

Eis que a bola correu sem controle depois de um pontapé meio canelado da nossa lateral direita mais linda da zona oeste, Dodó. E a bola saiu em disparada até esconder-se, presa entre o chão de concreto e o fundo de metal do carro de Pio, distante de nós. Fiquei olhando sem me dar conta do que estava prestes a presenciar. Você agachou, olhou onde estava a bola e veio o lance mágico do dia, filho.
Você deitou no chão, esticou a perna, criando uma alavanca, tirou a bola com classe e voltamos a jogar.
A vida resume-se a isso, filho. Quando algo prende a bola, a gente precisa correr atrás, usar as alavancas, devolvê-la para o jogo rapidamente e continuar como se nada tivesse acontecido. Será assim nos seus relacionamentos, nos seus trabalhos, com os seus amigos, com a gente, sua família.
Bola sempre para a frente.



– Toca, toca, estou livre aqui na esquerda.

Do seu pai,
Pedro.