Irene,

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desculpa, mas o assunto é chato. Trabalho. Trabalho, filha, é algo que os adultos fazem
para conseguir bens materiais e, por vezes –e numa proporção infinitamente menor–,
alcançar bens espirituais.
em gente que trabalha pouco e sofre com isso. Tem gente que trabalha demais e sofre com isso. Tenho uma história boa sobre o assunto. Trabalhava numa agência de publicidade daquelas bem grandes, cheias de gente andando com pressa, vozes altas ecoando pelos corredores, obras de arte fajutas nas paredes, sapatos caros andando sobre tapetes baratos, olhares desesperados de quem já não sabia que dia da semana era aquele. Uma tristeza sem fim. Observando as outras pessoas do trabalho,dia após dia, cheguei à conclusão de que muitos deles haviam errado de sala: entraram na agência, pensando que era uma emergência. Ou um centro cirúrgico, e que estavam salvando vidas, noite e dia. Sua mãe e eu fizemos uma opção de vida: trabalhar o mais perto possível de vocês. Mais que geograficamente, emocionalmente.A gente acredita que dá muito mais trabalho consertar do que cuidar (isso você entenderá no futuro). Pelo fato da gente amar cuidar de vocês, fica tudo mais fácil. O máximo de tempo que conseguimos ficar por perto,
melhor para nós todos. Vocês vão saber que podem
contar com a gente. É uma proximidade que transpassa a física. É para tudo, a qualquer hora, é plena. É para a vida inteira. E para as inteirezas de uma vida tão fracionada. O nosso trabalho existe para conseguir poucos bens materiais e, na maior parte das vezes, garantir nosso bem-estar espiritual maior, que é tê-los por perto. Agora dá licença que o papai precisa sair do blog e trabalhar –mas antes eu vou aí no pé da sua mãe fazer uma foto e te dar um beijo.
Espero não atrapalhar o trabalho dela.


Do seu pai,
Pedro.