Irene,

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sua mãe hoje foi surpreendida por uma pergunta minha. Deixa, primeiro, eu explicar a situação. Fui ao Recife no fim de semana. Sozinho. Vocês ficaram. Lá, reencontrei seus tios Joaquim, Fábio, Rildo e Gustavo. A gente tinha uma banda, quando era jovem. E, no sábado, algo especial aconteceu. No nosso reencontro, a banda tocou novamente. O nome da banda, que a gente tinha quando era jovem, era Habagaceira. Escrito assim mesmo, mas apenas por uma jogada de marketing (jogada de marketing é quando você acha que teve uma boa ideia, mas era apenas jovem demais). A bagaceira. Daqui, veio a expressão. Bagaço, o resto da laranja, espremido. E também: confusão, bagunça. Ainda: baderna, esculhambação. A gente esculhambava muito quando subia no palco, filha. O nome era perfeito. Ruim, mas perfeito. Dia desses, descobri que muitos amigos atuais nossos diziam que não iam ao nosso show por preconceito (jogada de marketing nunca funciona para todo mundo). Achei engraçado, porque eles confessaram que nem sabiam que estilo musical tinha a banda. A gente era jovem. Na época da banda, eu também não escutava algumas bandas pernambucanas por puro preconceito. Até que um dia resolvi escutar. E hoje em dia eu não escuto algumas dessas bandas pernambucanas apenas porque acho um horror. Mas sem preconceito algum. Voltei do Recife ontem e hoje, enquanto você, sua mãe e eu voltávamos para casa depois de deixar João na escola, olhei pelo retrovisor, vi você e perguntei:

– Como será essa pessoa quando crescer?

Sua mãe ficou surpresa, mas nem pensou.
Disse, na lata, "acho que vai ser uma bagunceira". Bagunça, baderna, confusão. Está vendo o bagaço da laranja ali do seu lado, no chão? Adivinha quem jogou.O mundo, filha, é uma laranja. Redondo, pequeno e esculhambado feito uma laranja. Melhor que a gente seja assim mesmo. E se leve menos a sério. Sempre.

Do seu pai,
Pedro.