Irene e João,

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prestem atenção, que o assunto é sério. Estão prestando? Então vamos lá. Vocês sabem que, quando o dia começa aqui em casa, há um ritual: sua mãe e eu seguramos um calhamaço, chamado jornal, vamos passando as páginas, lendo, vendo tudo que nos interessa, por vezes contamos um para o outro algo que nos despertou a atenção. Muitas vezes, vocês estão envolvidos nas histórias. Nos finais de semana, por exemplo, sempre aproveitamos que o jornal está por perto para combinar algo interessante para fazer com vocês dois. Uma exposição, uma peça, um filme, um passeio pelo parque, um festival de música. Mas nem todos os dias a gente se depara com coisas boas, no jornal. Há notícias tristes, também. E há aqueles textos que lemos um para o outro, em voz alta, fazendo aquela cara de "que absurdo". A cara de "que absurdo" é aquela: testa franzida, queixo para a frente, olhos arregalados, orelhas no mesmo lugar de sempre, porque ouvir é sempre bom, mesmo durante uma cara de "que absurdo".
Ontem, a gente leu em voz alta um texto de um senhor
chamado Thomas L. Friedman, lembram? Falava sobre a possibilidade de novos modelos educacionais, onde 'play, passion e purpose' seriam as palavras-chave de uma sociedade mais preocupada em deixar suas crianças motivadas a pensar -e não prontas para a faculdade, para um emprego qualquer, apenas. O título do artigo era 'Need a job? Invent it' (quando vocês lerem isso, já saberão o que significa). Vejam. Isso foi ontem: um texto sobre o futuro. Ontem. Texto que sua mãe e seu pai leram em voz alta, mas sem fazer cara de "que absurdo". Pelo contrário. Mas hoje, ainda estão prestando atenção?, mas hoje o papai fez uma cara dessas. Tudo por conta de um texto publicado que defendia "a importância da empresa". Filhos, o papai não vai guardar o jornal de hoje –até mesmo porque este texto parece ser de 1981. É muito tempo guardado, vai acabar espalhando mofo pelo bairro inteiro, quiçá pela cidade de São Paulo, talvez pelo Grande ABC. Vamos fazer o seguinte. O texto do Friedman está salvo no iPad. Podem procurá-lo quando quiserem. Ali existe um caminho para o futuro inteligente, onde as relações profissionais serão menos arcaicas, onde vocês dois poderão colaborar em projetos que acreditam, dedicar esforços para aprender aquilo que mais se identificam, onde mais importante que o lucro é o retorno. Espero que a gente continue fazendo da leitura matinal um hábito familiar. Deve ser muito triste não ter tempo para ler. E deve ser muito triste escrever às pressas.

Pronto, revisei o texto. Agora posso postar.

Do seu pai,
Pedro.