Irene e João,

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ontem o papai fez uma coisa perigosa. Coloquei minha capa branca da superproteção, bebi água da supervelocidade e fui às ruas com meu vinagre superbalsâmico. Arrisquei a vida, enfrentei a truculência da polícia paulistana (inclusive a Tropa de Choque, que são homens que ganham um salário miserável, moram em condições péssimas, não conseguem educar seus filhos em escolas terríveis, não têm acesso a hospitais públicos de qualidade e, assim, descontam a raiva dessa tremenda injustiça em quem estiver pela frente –mas nunca dão de cara com os seus próprios chefes, veja que azar, desses rapazes). Fiz isso para participar de uma manifestação não-partidária, em defesa de alguns princípios básicos de uma democracia: direitos e deveres legitimados para todo e qualquer cidadão –entre os direitos, o de ir e vir, com transporte público de qualidade, eficiente, adequado, com preço acessível e justo. Isso foi apenas o início. O protesto também tinha outros focos, outros motivos para existir. O cansaço moral que nos afeta com a banalização da corrupção (por décadas e décadas), o descaso com o patrimônio humano brasileiro, a incompetência de gestores (por exemplo: o governador –ele é o responsável direto pela administração do estado de São Paulo, onde vocês nasceram, mas parece não dar muita importância para o que será desse estado quando vocês forem adultos, o que me parece indevido como comportamento de uma liderança, vocês não acham?). Havia gente protestando contra uma PEC (isso não existirá mais quando vocês crescerem, mas é mais ou menos assim: um grupo de aproveitadores, que recebem o apelido de deputados, cria um texto que os beneficia e usa dos mais diversos meios de viabilizar o que esse texto diz –é como se eles estivessem o tempo inteiro trabalhando para si próprios, quando na verdade receberam autorização da população para defender interesses coletivos, e não individuais). Outras pessoas criticaram o posicionamento do prefeito da cidade de São Paulo (ele foi eleito recentemente e uma das suas maiores bandeiras era justamente o transporte público: ele dizia que iria criar um bilhete único, mais barato e acessível aos trabalhadores da cidade, mas acabou confundindo todo mundo criando uma tarifa mais cara para o transporte insuficiente e velho que ocupa vias cada dia mais estreitas na cidade).
Foi muito arriscado, filhos. Se vocês vissem tudo acontecendo, iam achar que seu pai é um verdadeiro herói.

Filhos, esqueçam a ficção. Ela não existe. Seu pai não é herói, nem arriscou a vida, nem tem capa branca alguma –e prefiro azeite a vinagre, confesso.
Foi tudo muito mais simples. A polícia também me pareceu indignada com tudo o que nos cerca –e, quando entendem isso, ficam ao nosso lado, em silêncio, num luto doloroso de quem, no fundo, gostaria de tirar a farda e vestir uma capa branca. Tudo bem, capas brancas existem, confesso.

Ontem, o que aconteceu em São Paulo foi um importante passo adiante (uma revelação para o futuro: de que algo mudou e que a nossa voz passou a ser ouvida, reverberada, a fazer efeito) e um passo para trás (uma revelação do nosso passado: que isso seria impossível há muito pouco tempo, que estivemos escondidos na coxia, sem saber sequer que tínhamos voz no belíssimo espetáculo que é a Ópera da História).
 

Hoje, filhos, estamos com uma ressaca deliciosa. A simples sensação de que é possível. Só isso: é possível.
 

Poder vem daí, filhos: da possibilidade.

Do seu pai,
Pedro.

p.s.: Escolhi essa foto ontem, antes de ir para a rua. Deixei minha tela aberta nessa página, sem texto escrito, apenas com a imagem de vocês e sua mãe. Pela minha cabeça, um rápido (e trágico) pensamento de que, se algo acontecesse comigo, vocês teriam a ela. Pensamento natural de quem tem medo de perder o que realmente importa. A foto não tem a ver com a manifestação, não tem a ver com o país, não tem a ver com luta alguma. Mas, sabem, tem a ver com a verdadeira pátria de vocês dois. A sua mãe. Ela é sua mais importante origem –e é para sempre. O resto é apenas um Brasil. E esse, a gente pode mudar quando quiser.
Basta ir lá fora.