João,

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lá de cima, as maiores pontes parecem fios de cabelo. Os rios caudalosos, pequenas artérias. Até o mar e toda a sua imensidão é reduzido a uma sensação de plástico azul que daria para embalar poucos livros, na mudança. Cidades inteiras iluminadas nos dão a –linda, a meu ver– sensação de pequenas constelações misteriosas (será que há vida ali?, pensei certa vez). As copas gigantes, amazônicas, das árvores, lembram pequenos gomos de um tapete de boas-vindas à natureza. As mais longas e complexas estradas são só um grupo de formigas frenéticas: na mesma direção, com repetidos movimentos, gestos, passos, uma sequência de semelhantes em mão dupla, seguindo caminhos iguais e distintos para, em algum momento, entrar num formigueiro qualquer e garantir o sustento de (quase) todos para o inverno que ou se aproxima, ou já chegou. As fazendas, coitadinhas, viram desenho a lápis de formas infantis. O deserto inteiro, um grão. Lá de cima, filho, a gente sente o quanto é pequeno. Ou o quanto é grande, depende da perspectiva.


Do seu pai,
Pedro.