Homero,

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nós não escolhemos nada. Tudo existe para que a engrenagem funcione, apenas isto e já é tanto. O que diferencia o homem sem sorte daquele outro, privilegiado, é nada. Um precisa do outro somente para que isso possa ser dito: "sem sorte" e "privilegiado". Somos todos absolutamente iguais e passamos boa parte da vida perseguindo distinção. Sabe que recordo claramente um dia em que olhei para meu próprio rosto no espelho em busca de traços parecidos com os seus, porque nunca os via, porque naquele dia algo havia nos acontecido e voltei para a casa da minha mãe pensando que jamais seria inteligente como você –e isso me colocou diante de mim mesmo com a pergunta que filhos, por vezes, fazem.

Por que somos tão diferentes?

Nada. Tanto tempo tentando ver, mas nada.

Em janeiro deste ano, coloquei-me diante do espelho outra vez, mas as questões eram outras e o espelho era outro. Você.

Por que somos tão diferentes?

E uma confissão. Minha memória é péssima, fico tentando resgatar, por exemplo, o momento da separação entre você e minha mãe, não lembro de nada –eu disse. Você, sempre tão sério, seguro, desmontou. Perguntou-me como.
Como?
Não lembro.
Não lembra?
Não lembro.
E então você, olhos mergulhados num mar que desconheci, contou-me a história. Disse-me que, ao encontrar seu amigo, Rosalvo Mello, contou-lhe sobre a separação entre você e minha mãe. Contou-me também que, em seguida, pouco tempo depois, ele publicou o fato acima, em forma de crônica.

"Coisas da vida." –a coluna.

"Pedro, o grande." –o título.
Trinta e três anos para que eu lesse a crônica da separação que, enfim, me uniu a uma verdade que nunca enxerguei. Você sou eu, sou você.

E tenho um grande orgulho disso.
Maior que qualquer caminhão de mudança.
Maior que qualquer saco de pipoca.

Obrigado, pai.


Do seu filho,

Pedro.


p.s.: foi por conta deste episódio que nasceu o Do Seu Pai. Depois dessa conversa com Homero, meu pai, em janeiro deste ano. Graças a ele, ao meu pai, acordei para a importância de registrar a história com nossos filhos. Para que eles olhem no espelho sempre em busca de semelhanças. E jamais das diferenças, pois jamais encontrarão –elas não existem. João, Irene e Tereza, agradeçam ao seu avô.


p.s.2: feliz Dia dos Pais a todos que passam por aqui.