Irene,

há muitos anos, antes de casar com sua mãe, morei num apartamento cheio de espelhos de camelô –aqueles pequenos, com moldura laranja. Vários deles, do chão ao teto. Gostava dos espelhos ali, naquela parede, por uma questão luminosa. Eles todos apontavam para o janelão que eu tinha na sala. Assim, juntos, refletiam intensamente a luz do dia, provocando a sensação de sobreposição, superexposição, em bom português e péssimo retoriquês: alumiavam a sala inteira. Mergulhado naquela claridão, morando sozinho, via a mim mesmo nos reflexos fracionados que provocavam.

A vida demora muito a passar, filha. E de repente fica tão curta, depois que passa.

Soubesse disso desde cedo, olharia melhor os signos que sempre estiveram diante de mim. Os espelhos. Eus. Veio o seu irmão, João. Veio você. Está a caminho a sua irmã Tereza.

[Ontem, filha, passei por um susto. Sua mãe, que é metida a cavalo do cão e aguenta dores a mim impossíveis sequer de supor, sentiu dores constantes durante boa parte do dia. À noite, ligou e disse apenas que era "urgente", que eu fosse para casa. Tenho medos e medos. Medo de voar de asa delta: não vou, nunca, por mais lindo que seja. Medo de ver um de vocês sofrer: pulo de asa delta quantas vezes for preciso para que isso não aconteça. Fui voando. Cheguei em casa, a vi sentada no chão, pálida, e você ao lado dela, calma. Coisa que, em você, é raro, preciso confessar. Sua mãe estava sentindo dores estranhas. A médica, viajando de férias. A médica substituta não respondia. Por instantes, pensei em uma longa história. Filha, tenha paciência, vou voltar ao assunto, prometo. A longa história. Seu irmão e você nasceram a partir de cesarianas. Não são partos normais, são uma cirurgia. Vai contra a natureza humana, o ciclo normal de reprodução. Sua mãe decidiu que Tereza irá nascer do jeito que ELA, sua irmã, quiser (e eu decidi junto, com a certeza que vou apoiá-las em absolutamente tudo o que estiver ao meu alcance). O parto é de Tereza. Ela será a protagonista da sua própria vinda. Sua mãe decidiu que vai encarar esse desafio. Sua mãe nutriu raiva dos médicos que fizeram os partos de vocês dois, sabe, filha? Mas eu procuro sempre dizer que ela não alimente isso. A culpa não é (apenas) (somente) deles. Pior, muito pior, são os tutores desses médicos que fizeram seus partos. Os que, nas Faculdades de Medicina Obstetrícia, foram "professores" dos médicos atuais. Que, como maior legado, deixaram ensinamentos como "a facilidade de agendar uma cesárea", ou "que é mais seguro com os planos de saúde", "mais rentável", ou sei lá mais o quê. O que me parece, num imenso país continental cercado por ignorâncias, é que os médicos-obstetras atuais, sem sua maioria, são grandes vítimas de uma educação negligente, desumana, pobre –no sentido mais pobre da palavra. Mas há uma minoria, forte, que luta a favor da natureza humana. A natureza que é procriar, parir, colocar no mundo. Hipócrates, em seu juramento, começa por "Prometo solenemente consagrar a minha vida ao serviço da Humanidade" - na versão mais recente que encontrei aqui no Wikipedia. Também faz parte da natureza humana acontecerem acidentes. E aí, o mínimo que se espera é que os médicos estejam aptos a enfrentar a adversidade. Ali. Na hora H. Na chegada. Mas não dizer que "a placenta encolheu" nas 38 semanas de gestação e contar com a nossa ignorância (sim, porque da nossa ignorância como pais também se perpetua os métodos cirúrgicos). Portanto, me parece que a solução mais eficaz é buscar informação. Todos os lados. Por todos os lados. Os médicos e os pacientes. Para que seja mais claro o papel nosso de cada dia, dia após dia. Sua mãe está bem. Foi só um susto.]

Os signos estiveram ali, o tempo inteiro, diante de mim. Espelhos. Vocês são meus pequenos espelhos, alumiando duplamente meus dias, dois sóis (em breve, três) fazendo com que me enxergue em pequenas molduras de mim mesmo. Tomando coragem na sua coragem. Dialogando como João dialoga. Sendo muito mais eu, em vocês. E quando, pela terceira vez, sua mãe der à luz, filha, também será a terceira vez que a vida, o espelho, o reflexo, estarão radiantes como nunca.
Como nós.

Do seu pai,
Pedro.



p.s.: sobre o parto normal. Estarei incondicionalmente ao lado da sua mãe.