Irene,

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é preciso escovar os dentes, sempre, depois de comer doces. Dentro do universo da repetições (aliás, bom que saiba, filha:

o Universo é apenas uma enorme repetição –ao descobrir isso, você irá sorrir mais do que chorar), essa será uma ladainha comum de se ouvir da boca do papai aqui. É que o ato de escovar os dentes traz mais do que o esmalte dentário pode esconder. Coloquemos a lupa sobre o gesto, o ato. Escovar os dentes é um cuidado nobre com nós mesmos. Isso certamente irá desencadear, em você, outros pequenos enormes cuidados, manutenções, prevenções, observações fundamentais para que a sua saúde dependa minimamente de tratamentos ao longo dos anos. Você irá perceber, posso garantir, ao longo destes mesmos anos de vida saudável que irá viver (e conviver com a minha constante ladainha sobre escovar os dentes), que as pessoas que escovam os dentes têm uma lista de amor-próprio simples, mas eficaz. Atravessam a rua na faixa de pedestre. Leem bastante (com iluminação adequada). Comem peixe. Abraçam. Tomam banhos frios sempre que dá. Também tomam sol. Cantam. Dançam, dançam muito. Dormem bem –o suficiente para descansar o corpo; nunca mais do que possa parecer uma perda de tempo. Sorriem. Convivem. Deixam recado de voz apenas para mostrar que sua voz está ali, por perto, em algum lugar. Chegam de surpresa. Adoram quem chega de surpresa. Pensam no que falam. Falam o que sentem. Sentem muito, quando perdem alguém. Vão a velórios como vão a festas: certos de que algo está sendo celebrado, seja uma perda, seja uma conquista. Beijam de olhos fechados para o mundo apagar, por instantes. Suspiram suspiros. Comem doces. Escovam os dentes. Sempre.

 

Do seu pai,

Pedro.