Irene e João,

o destino é um safado. É um Curupira. Um moleque travesso, que corre ligeiro pelo meio da mata, coloca medo em uns, encanta outros, assusta qualquer um que perceba seus calcanhares virados para a frente. Quando ele foge em disparada, para a frente, parece estar de costas. Quando recua, armando um bote, distorce a nossa percepção como se estivesse indo adiante. O destino, Curupira, armou uma presepada com a gente.
Vocês leram o último texto que o seu pai escreveu aqui? Falava sobre cabermos, juntos, a nossa família inteira, em qualquer espaço, ainda que fosse um metro quadrado de nada, porque o amor nos aproxima de tal modo que, coesos, simplesmente cabemos.
Pois ontem, num pequeno espaço de pouco mais de metro, o elevador do nosso prédio, o Curupira, destino, armou uma peça. Como se adivinhasse o texto que o seu pai havia escrito, desdenhou e desafiou as nossas crenças.
Uma moradora do nosso prédio –que, infelizmente, nem sei o nome– encontrou com vocês e sua mãe. Na descida até o térreo, notou que sua mãe está grávida (a Tereza, na barriga dela, cresce sem parar, uma coisa linda) e deu início ao seguinte diálogo:

– Grávida?! De novo?
– Sim, sim. (sua mãe e aquele sorriso dela)
– Nossa, vocês são corajosos.

Sua mãe ouve isso todos os dias. Eu ouço menos, talvez pela minha beleza natural, que espanta esse tipo de comentário. O diálogo continuou com a sua mãe tentando conciliar (ela é muito boa nisso):

– Ah, corajosos, um pouco. Mas filho é sempre uma alegria, não é?
– Não, não. Muita coragem.

Sua mãe lembrou que ela é mãe de gêmeas.

– Você também deve ter ouvido muito isso, quando engravidou de gêmeas, não?

E veio a pérola, da vizinha, do Curupira-destino, esse fanfarrão:

– Mas no seu caso é muito pior.

Nesse instante, sua mãe entendeu que o diálogo não precisaria ir adiante. Havia chegado o térreo. Sorriu, despediu-se, educadamente, saiu. A vizinha continuou no elevador, tentando explicar o que havia dito. As palavras foram abafadas pela porta do elevador fechando, enquanto ela descia, provavelmente para o subsolo.
Filhos, papai precisa contar algumas coisas para vocês.
Primeiro: algumas pessoas não são educadas. Mesmo tendo estudado na escola mais cara do Brasil.
Segundo: algumas pessoas não são sensatas. Mesmo tendo cabelos brancos.
Terceiro: algumas pessoas não são agradáveis. Mesmo abusando do perfume.
Quarto: algumas pessoas são feias. Mesmo que o espelho não enxergue isso.
Por fim, quinto: estamos pensando em ter mais um filho depois da Tereza. Vocês topam embarcar comigo e com sua mãe nessa viagem? Prometemos jamais descer ao subsolo.

Do seu pai,
Pedro.