Irene e João,

bom dia.

Bom dia para o irmão, irmã, mãe, pai. Bom dia para a avó. Bom dia para o avô. Para a tia. Para os tios. Para o bivô e a bivó. Para a vizinha. Para os amigos da rua. Para a amiga que foi morar no Rio, derretendo o nosso coração de saudade. Bom dia para o casal que mora no Canadá, que daqui a pouco terá um filho. Para os amigos em Lisboa, Varsóvia, Londres, Austrália, Berlim. Bom dia para quem mora logo ali – e logo veremos, por aqui, em casa. Para o médico que conseguiu um horário. Para a amiga que chega sem avisar, pois sabe que a nossa casa é, também, dela. Para a madrinha e o padrinho. Bom dia para o porteiro sorridente, para o desconhecido que anda com dificuldade na nossa calçada abandonada, para a moça bonita que carregava flores. Bom dia para o gari que acordou tão cedo – nem desconfia que hoje ainda é ontem. Bom dia para as crianças descendo a ladeira apressados – o sinal da escola tocou, lembram? Bom dia para o carteiro triste (queria levar mais cartas de amor que contas a pagar, mas não consegue). Bom dia para a senhora do sobrado colorido, café quente na mão, espia o mundo enquanto ele ainda não acontece. Para o jornaleiro atrasado, em disparada, suado - má notícia corre. Bom dia, seu Josué, chegou cedo?, cheguei, vão passear?, vamos! –conversa longa na certa, essa. Bom dia para quem não responde. Bom dia para quem abraça. Bom dia para quem pintou você praça, acho graça; você prédio, acho tédio. Bom dia para o casal que acorda com música de dançar. Para a faxineira linda, gorducha, simpática –que teima em dançar na calçada, sem pedir licença, a música do casal. Para você que inventou a tristeza, ora tenha a fineza de desinventar (era essa, a música). Bom dia para a velhinha que conversa com o jardim inteiro. Bom dia para o moço sonolento da oficina. Para as amigas do posto de saúde. Para a professora de natação. Bom dia. Bom dia. Bom dia. Nunca deixem o bom dia para amanhã, filhos.


Do seu pai,

Pedro.