João,

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hoje é aniversário do Bernardo. Seu primo.

Espere. Volte duas casas.

A sua mãe e a tia Clarinha são amigas desde sempre. Desde sempre é quando faz tanto tempo, que a gente já não conta em anos, meses e dias. Conta em histórias, sentimentos, reencontros, em forma de amor vivido. Desde sempre, a sua mãe e a mãe do Bê são amigas. Eu vou contar uma história. Certa vez, sua mãe e eu estávamos juntos, num restaurante. Era o começo de tudo. Era tudo que um começo precisa para começar: ela e eu. Mas amor de dois fica muito feio se for exclusivista. E sua mãe pegou o telefone.


[Uma pausa: essa semana, filho, vi –na internet– uma das coisas mais tristes de todos os tempos. Um casal resolveu celebrar o casamento numa praia. Só os dois. Os dois, uma moça que celebrou, uma maquiadora, um organizador e uma fotógrafa (que fez fotos muito bonitas do momento). Mas o momento, em si, foi uma das coisas mais tristes que já vi. Porque era a celebração da união de dois e estavam apenas os dois. Amor de dois, filho, é muito mais que dois –essa conta, um dia, você vai entender. Deixa eu contar uma história dentro da história. Quando sua mãe e eu casamos, eu estava casando com ela e com mais um monte de gente. Casei com a irmã dela, sua titia. Casei com a mãe e o pai dela, seus avós. Casei com seu bivô. Casei com o papai da sua titia, o Zé. Com sua bivó. Casei com seus tios Mari e Julio, casei com nossos padrinhos (já separei de alguns deles, até, mas é assim mesmo –nem todo casamento dura tanto). Casei com amigos da sua mãe. Dentre eles, casei com sua tia Clarinha e seu tio Ricardo –os pais do Bê, você sabe.]


Sua mãe e eu no restaurante e ela puxou o celular e disse que precisava dividir o momento, contar aquilo para alguém. Aquilo o que?
Aquilo: sua mãe e eu ali, no restaurante, retomando um amor que nunca se foi, nunca irá.
Alguém, quem? Alguém importante, tão importante que fosse capaz de, ao receber o nosso amor, pudesse sentir-se amada também. Ela quis dividir o que estava sentindo. Ligou e disse "adivinha com quem eu tô?". Era comigo. Falei com sua tia Clarinha, rimos, comemoramos, ainda que à distância. Nunca mais ela saiu das nossas vidas. Bom, que jamais sairia da vida da sua mãe, eu sabia. Mas jamais sairia também da minha vida, descobri pouco tempo depois, quando casei com sua mãe. Nosso casamento foi, também, com ela, com o Ric.
E um dia, nas nossas vidas, entrou o Bernardo.
Foi exatamente no dia 16 de julho, como hoje, mas em 2007. Hoje, o Bê faz 6 anos.

É dia de dar os parabéns para ele, filho. E dizer que, desde sempre –que é aquela coisa que a gente não conta em anos, meses, dias– a gente o ama. E que isso não é amor de dois.

É amor de muito. E de muitos.

Dá até para dividir com mais gente.


Do seu pai,
Pedro.