João,

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nenhuma decisão deveria ser tomada de cabeça quente. Da mais simples mudança ao aparentemente mais complicado passo a ser dado na vida, nada deveria ser decidido no calor dos nossos pensamentos, sensações, vontades. O calor derrete o metal do raciocínio. E com a percepção escorrendo como mercúrio, aquele líquido perigoso e sedutor, mais provável se torna o passo em falso, quando não o triste descompasso. Acredito que com vários passos em falso a gente molde nosso instinto –e ele é valiosíssimo. Mas isso nos custa cicatrizes nos joelhos, no queixo, na testa e nos cotovelos (uma dor aguda, esta última). Já o descompasso nos leva a dores ainda maiores. O descompasso acontece quando toca uma música, mas dançamos outra. É feio, filho.

Isso aqui não é uma regra, nem um daqueles conselhos com voz de pai (sabe, voz de pai?). É apenas um pedido. Um pedido para que você, nas horas em que sentir que necessita tomar uma decisão muito, muito importante, mas estiver em dúvida, faça uma escala rápida de ouvidos e bocas com quem contar. Pessoas que já tenham mais marcas que você no queixo, na testa, nos joelhos e nos cotovelos. Eu, sua mãe, sua tia, suas avós, alguns amigos bons, enfim: você saberá sempre quem são essas pessoas.

E se o calor do momento parecer a maior pressão sobre seus ombros, aí, sim, eis uma regra: tome um banho frio. Não importa a estação do ano: tome o banho mais frio que puder. Seja de chuveiro, seja de cachoeira, seja de mar: tome um banho frio. Ao sair da água, você estará mais lúcido do que entrou.


Do seu pai,

Pedro.