João,

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há uns dois anos, passamos por um momento, eu diria, esquisito. Trabalhava num lugar (esquisito) aqui em São Paulo, mas uma das minhas funções era ir sempre ao Rio de Janeiro, acompanhar os trabalhos que estavam em andamento na pequena unidade da agência de publicidade na capital carioca. Durante um ano e pouco, trabalhei infeliz. O resultado do árduo esforço diário não dava o mínimo de orgulho necessário. Papai estava triste (e esquisito).

No meio disso tudo, na nossa missão de minimizar as coisas e rir das desgraças, inventamos uma brincadeira. Com as mãos, usando o indicador e o dedo médio, eu imitava um personagem dando passos. E repetia, fazendo com que esse boneco imaginário fosse para a frente e para trás: "papai vai, mas volta".

Toda semana era assim. E o mínimo que eu podia fazer era tentar passar segurança de que ia, novamente, mais uma semana, infelizmente, mas voltaria logo. Para perto de você, da sua mãe (Irene ainda nem tinha chegado), da nossa casa. Essas idas e vindas mexeram com a gente. Mas fomos fortes. Você, mais do que eu. Organizava calendários. Antecipava a brincadeira, quando via minha mala pronta, imitava o gesto dos passinhos com os dedos sobre o braço, dizia "papai vai, mas volta".

A ida logo adiante. A volta distante. E o intervalo para sofrer um pouco. A gente cria calos, fica mais forte, preparado, com essas pequenas coisas.

Hoje você saiu cedo de casa, filho. Na praça, seus amigos da escola já o esperavam. Ônibus cheio. Travesseiros, colchões, lençóis, malas pequenas, para apenas dois dias. Você foi acampar.

Filho vai, mas volta. Estou aqui repetindo sem parar. Até amanhã à noite.

 

Do seu pai,

Pedro.