João, Irene e Tereza (que pode chegar a qualquer momento),

hoje é o meu aniversário. 20 de janeiro de 2007, o dia em que nasci. Mal sabia que estava prestes a descobrir, a partir daquele dia, que a nossa existência é isso, uma sequência de nascimentos, perdas de controle, a favor do universo, para que forças se manifestem naturalmente e modifiquem o que nos cerca. Mal sabia, naquele fim de tarde, lá no alto de Olinda, na Rua do Amparo, vendo o Recife distante, no horizonte (vejam, filhos: o Recife era apenas uma coisa distante no horizonte a ser observada – e eu, do alto de minha inocência, no alto, no Amparo, não entendia o sinal, de que aquela cidade seria apenas isso mesmo, um horizonte distante, uma linha estreita do tempo perdida no mar, à frente do sol, servindo apenas de anteparo ao fim de um dia definitivo, o começo da minha vida). Lá, do alto, ouvia-se um maracatu de branco, desritmado, passando lentamente. Lá do alto, ouvia-se Lula Queiroga, nosso padrinho. Ouvia-se Silvério, nosso querido amigo. Ouvia-se as melhores vozes, dos nossos bons amigos. E ouvia-se o silêncio absoluto no peito. Que antecede o nosso nascer. Mal entendia que seremos perseguidos por isso, constantemente. O barulho lá fora nos tira para dançar, o silêncio aqui dentro nos convida a rezar para um deus que temos certeza que não existe, mas existe.
Em silêncio, observei a mãe de vocês subir pelo gramado, lentamente, sorridente, leve. Mal sabia que, dali para a frente, todos os dias, comemoraria cada passo dela como se fosse o primeiro, por saber que seu caminho é o meu. Para onde ela for, é para onde devo –e quero– ir.
Naquele 20 de janeiro, há sete anos, lembro de ter nascido nas palavras do meu irmão Joaquim. Lembro de ter nascido ao ver a sua mãe girando, girando, girando linda, rodeada pelas amigas Lacerda. Lembro de ter nascido no abraço surpreendente do meu sogro Angelo, que tanto conhece aquela Olinda e esta, linda, sua mãe. Lembro das lágrimas nos olhos de Lydia, de Marinês, de quem mais? Quem chorou?
Eu chorei, ao nascer. É assim que nascemos. Choramos. E dizem: está vivo e está saudável, chorou forte.

Chorei forte, vivo e saudável.
Naquele sábado, fim de tarde, lá do alto do Amparo, sua mãe me fez nascer.
Hoje, filhos, comemoramos sete anos de casados.

E os meus sete anos de vida.

Porque sem a sua mãe, eu não seria.

Do seu pai,
Pedro.