Lua,

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passei a vida inteira tentando te inventar. Nos lugares que passava, gostava, e voltava, e recomendava, e dizia que eram incríveis, em cada um deles buscava você. Nas comidas inesquecíveis. No livro que tinha apenas um parágrafo importante, lá estava sua imagem, descrita, escrita. Do filme que não lembro o nome –não lembro de nenhum– mas recordo frame a frame da cena perfumada, com o seu cheiro. Em redes de dormir. Em camas boas para a coluna. Em praias com sombra para mim, sol para você. Nos dias solitários em que pensei no futuro, você aparecia sentada numa cadeira de balanço daquelas que as nossas avós tinham, lembra? Eu lembro. Certa vez, ao tocar uma música com meus amigos de banda e de adolescência tardia, fechei o olho diante da plateia e, ao reabrir, estava você, de cabelo novo, logo ali, sorrindo para mim. Invenção minha. Passei a vida inteira tentando te inventar em histórias pequenas. A história dos meus espelhos de camelô. A história do saquê enlouquecido. A história da menina na caixa de som. A história das viagens curtas que tornam-se longas. A história do ovo de páscoa surpresa. A história da mensagem telefônica sem assunto. A história da invasão de Barcelona. A história de um show infantil e de um torcicolo eterno. A história de reencontros breves, desencontros para amadurecer e inventar mais você. Sabe que havia lugares, só meus, que eram só seus? Desde sempre. E por sempre entenda-se sempre. Desde que havia eu, havia a tentativa de inventar você. Assim fui me fazendo, desfazendo e refazendo, de acordo com o que imaginei ser uma invenção tamanha, a qual dei o nome de amor. Imaginação fértil, a minha. Nas minhas melhores memórias, tinha o amor como uma fotografia sua. Seria muito. Seria amor com cara de sonho e não fui tão bom moço assim para merecer tamanho agrado de deus. Deus. Deus era uma mulher, pequena, mas forte, linda, mas tão inteligente a ponto de deixar a beleza em segundo lugar na lista de admirações minhas, deus era uma menina de espírito novo, uma reencarnação de alguém com quem eu sabia poder contar, alguém que me fizesse ter coragem para enfrentar: de onça a exército inimigo; de tentação fácil a planos de vida complexos; de altura abismal para saltar de asa delta a profundezas oceânicas só possíveis de descer de escafandro; de remédios a abraços demorados; deus era uma menina sorrindo com os olhos, para mim, sentada na caixa de som, aquela pequena história de uma vida inteira.
Uma vida inteira que passei, tentando te inventar, até que, diante de mim, vi que alguém havia chegado antes. E você já existia. E, ao existir, confirmava cada uma das minhas intuições de que, sim, claro, seria possível ser feliz por uma vida inteira. Sem mais ter que inventá-la, dei início a minha verdadeira missão, de reinventar a mim mesmo, cada um dos meus dias. Para ser melhor para você e para os nossos filhos.
Aqui estou, no dia que celebra a sua existência, a sua invenção, mais uma vez, agradecendo ao deus-menina por existir.
Obrigado, meu amor.

Parabéns.

Te amo mais que ontem, menos que amanhã.


Do pai dos seus filhos,
Pedro.