Teresa,

em um mês, dá para fazer uma revolução. Já aconteceu isso outras vezes. Um outubro aqui, um julho acolá. Entre janeiro e fevereiro, revoluções acontecem debaixo de tiros de serpentina e bombardeios de confete, geralmente – esse ano, para evitar conflitos, caiu em março. Ainda bem. Seria muito carnaval para o coração de um pobre pai canceriano. Em um mês, filha, dá para se apaixonar perdidamente. Fazer juras sinceras – que, de tão sinceras, soam mentirosas – para o novo amor que acabou de entrar em nossas vidas. Beijar desesperadamente, abraçar compulsivamente, exagerar moderadamente. Um mês, o tempo mais que suficiente para descobrir algo novo, um horizonte jamais visto, a paisagem mutante da janela – que no outono afaga os olhos e no verão, neste verão insano, maltrata a carne. Um mês muda nossa fé. Muda nosso deus. Muda nosso altar. Muda a reza. Antes: Senhor, seja lá quem for, Senhora ou Senhor, vai saber, traz tranquilidade para a minha família. Depois: Senhora, ou Senhor, seja lá quem for, traz apenas saúde que o resto já temos. Um mês termina um campeonato, reforma uma casa, doa um guarda-roupa, refaz uma amizade, conserta um buraco na calçada, silencia uma televisão, cura uma dor de cotovelo, cria um motivo para rever amigos (aliás: recebe uma visita amada de longos anos de distância), decora uma nova canção, muda o foco, pinta um quadro, enche um caderno de poesias, troca a lâmpada, pensa no futuro, um mês faz mais do que podemos lembrar. Faz mais sentido pensar num mês como fração importante de uma vida que segue o rumo assim, mês a mês, permitindo que a gente pense diferente, exigindo que se mude o estado em que as coisas se encontravam antes da guerra; in statu quo res erant ante bellum, res erant ante bellum, ante bellum. Um mês finda qualquer guerra que não deveria ter começado. 26 de fevereiro de 2014. Em um mês, filha, você fez tudo isso. E mais um bocado.

 

 

Do seu pai,

Pedro.