Irene,

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o excelentíssimo senhor governador mandou avisar: vamos racionar. Seria uma ideia excelente, se não viesse de um sujeito de copo meio vazio (desconfio daqueles). E sorrimos, dizendo: vai chover no seu copo, senhor; aliás, vamos chover no molhado do seu copo meio vazio, senhor. Governa a dor que mora no seu coração pessimista, homem, que aqui fora o clima é outro –vai chover, de novo, deu na tevê [cantando]. A gente reza, dança, canta, uma hora ela vem para diminuir o calor da sua alma em brasa, de tanto desamor. Tenha calma, senhor, excelentíssimo, governador, esfrie a cabeça. Já não se faz racionamento de amor aqui em casa há muito tempo. Isso aí é coisa dos seus tempos. Maus tempos, aqueles.

Desde a chegada do seu irmão que banho se toma junto aqui em casa – sempre que possível. Você descobriu logo cedo que se está no chuveiro é para se molhar. E veio sua irmã miúda para engrossar o cordão, diminuir os espaços, nos deixar ainda mais próximos, apertados, unidos, para disputar a temperatura ideal. Das maiores discórdias que conheço, a temperatura da água, no banho, deve ser a que mais atinge nossa família. Dosar a água quente, acrescentar água fria, lentamente, atingir (pela primeira vez) a temperatura que parece ser aquela, testar com cada um para ver se estamos de acordo. Ouvir reclamações, ouvir que está bom, atingir (pela segunda vez) o que poderia ser a temperatura adequada, esperada. Ouvir pela terceira vez que, agora sim, está do jeito que a maioria gosta (ainda não). Um ritual. E que nunca dá certo, no início. João prefere mais fria (com uma pitada de água quente). Sua mãe gosta da água bem quentinha. Você odeia água fria. Eu prefiro gelada. E Teresa, qual será a predileção? Ao decidir que tomar banho juntos – sempre que possível – é uma chance de (ainda) mais aproximação entre a gente, aproximação física e espiritual, nos demos a possibilidade de ter dois, três minutos de uma engraçada disputa pelo que cada um quer. Só que depois de três minutos de pedidos para esfriar, para esquentar, para abrir, para fechar, para pedir espaço para fugir do chuveiro, para pedir a vez de se molhar naquele exato instante, chegamos a um ponto consensual simples como a filosofia.

Nunca teremos a temperatura ideal para cada um. E, ainda assim, teremos um momento maravilhoso para todos.

Aqui em casa, filha, essa cena deverá se repetir com frequência. É possível. É perfeito. E assim podemos usar a água economizada para encher o copo meio vazio daqueles que não acreditam.

Acredite, filha. Amor não é para ser racionado.

Do seu pai,

Pedro.



p.s.: Excelentíssimo mesmo é o momento. Pai, mãe, filhos (aqui em casa são três) tomando banho juntos, economizando água, gastando todo o amor que escorre sem piedade enquanto estamos juntos, apertados, reclamando da temperatura da bendita água. Experimente aí na sua casa. Amor é assim. Quando mais a gente gasta, mais tem.