Irene,

esse texto tem duas fotos. Dois pensamentos. O primeiro (pensamento) que diz respeito a essa (primeira) foto é um recado para um senhor que mal conheço – mas que às vezes bate à porta, sempre com uma correspondência lacrada, difícil de abrir e que, quando aberta, fede a cola. Senhor Problema, seu nome. Sujeito mal-encarado. Parece um bicho-papão banguela, tão alto quanto um poste, tem olhos esbugalhados, gogó pontudo, orelhas de abano, unhas cor de graxa e joelho ralado de queda de bicicleta, deve ser. Toca a campainha, abro, ele olha fixamente para mim e diz "encomenda para você", dá uma risada esquisita, libera um bafo triste e sai como se nada tivesse acontecido. Os envelopes dele nunca têm palavras doces. Senhor Problema teve aqui, esses dias. Vi pelo olho mágico. Girei a chave. A maçaneta. Abri lentamente, a porta. E quando eu estava pronto para dizer umas boas verdades, antes do bafo, antes da risada, antes do "encomenda para você", antes do envelope, quando eu estava ainda preparando os pulmões para soltar uma boa dose de palavras, você apareceu no meio da sala. Veio até a porta, meio correndo, meio tropeçando, meio dançando. Sorrindo. Me segurou pelas pernas, pediu um abraço. Olhei novamente e o Senhor Problema não estava mais lá. Fugiu de medo, filha. Ouviu sua voz e fugiu de medo, o danado. Obrigado. O (segundo) pensamento diz respeito a essa segunda (foto). Fui na feira, filha, e lembrei que é importante ensinar a você e aos seus irmãos que de um punhado de limões se faz uma limonada suíça. Mas depois passo a receita. Prometo.


Do seu pai,
Pedro.

limao.jpg