Teresa,

você parece com sua mãe. Os olhos. O nariz. A boca. Até nasceu com um corte de cabelo parecido, veja só.  Tem também um jeito de encarar a gente, ainda descobrindo esse seu habitat novo, que tem muito dela, da sua mãe – é um olhar-sorriso, constantemente receptivo a quem passa por perto. Arrisco dizer que há nos seus movimentos (ainda são poucos) uma forte influência dos movimentos dela. Ora sem pressa, quase contemplativos, ora agitados, querendo dançar. Sua mãe dança em público. No supermercado, na fila do cinema, na sorveteria, na padaria. Ela é uma bailarina do acaso. Quando surpreendida, nos surpreende dançando. No começo, achava isso estranho. Ficava com vergonha, pensando no que as pessoas iriam pensar daquela moça bonita dançando fora do salão. Seu pai não sabia de nada, naquela época. Comecei a entender que os passos de dança por aí eram um passo importante da sua mãe, para dentro. Amor é isso: transbordar para dentro. E em tempos de vidas secas (não as suas, Graciliano), enchentes amorosamente internas fazem bem às ruas da nossa alma. Diante disso, manifestar suas pequenas alegrias com leveza, diante do mundo mastodonte, uma glória. Uma Glória, uma Lapa, uma Vila Isabel. Imagino que você vai dançar, filha. Você tem olhos de quem dança, olhos de quem rodopia, olhos de quem gira tudo ao redor. Você parece com a sua mãe. Que sorte, a minha. Que sorte, a minha. Que sorte, a minha. Que sorte, a minha. [e saio girando]

Do seu pai,
Pedro.