Irene e João,

o coqueiro visto pelos olhos de Alcir Lacerda. Vejo o próprio Alcir dentro da moldura de madeira que quebramos, correndo perigosamente pela casa. Casa é para isso. Quebrar uns cacos. Furar uns sofás. Riscar umas paredes. Não fosse isso, casa seria para ficar intacta em molduras. O coqueiro visto pelos olhos de Alcir. Uma inimaginável e incandescente fuga da luz solar pelo tronco, vinda do céu em preto e branco e cinza que os olhos dele estavam tão acostumados a ver. Os meus, não. Continua sendo inimaginável como o olhar dele, pelo pequeno visor da sua analógica nos leva ao tão perfeito momento que agora se emoldura, solitário, diante dos meus olhos, nesse começo de manhã (notem a luz que vem da direita, pela varanda). Eu, péssimo fotógrafo, registro exatamente o momento errado dessa entrada de luz matinal que quase cega a labareda de seu Alcir, do céu de Alcir. Adoro essa imagem, adoro lembrar que isso existe em nós, na nossa casa.
Pela janela, um fragmento mínimo, inexistente quase, do speak low que tanto gostamos e pregamos. Mesmo quando estamos correndo perigosamente pela casa. Quebra-se tudo, fala-se baixo. Perdão aqui em casa é obrigação. Quem quebra, está perdoado por isso, por quebrar. O pouco que se vê do speak low (um naco do ow, e só) me ajuda a fazer silêncio enquanto estou madrugando diante do silêncio de vocês, filhos.
Essa cadeira. Preciso consertar um prego que sempre me arranha. Erro de fabricação. Ela veio com um prego que transpassa o forro e machuca nossa perna. No caso, a minha, que sempre sento ali, no lugar exato onde mora a dor de um prego tentando rasgar nossa perna. O prego quer quebrar minha perna. Casa é para isso, para quebrar tudo. A moldura que abraça Alcir. As palavras que pedem para falar baixo, na janela. O prego.
E tem o horizonte torto. A todos que perguntam (e aproveitam para ironizar a minha terrível noção de geometria), digo que o prédio foi construído inclinado, levemente. Mas que corrigi com o adesivo, basta olhar a Cantareira ao fundo e notar. O horizonte está de acordo com o mundo.
Nesses últimos três dias, a casa esteve em desacordo comigo. Sua mãe e Teresa viajaram. O vazio é tão grande na casa que, precisando de mais espaço para esvaziar, invade o meu peito. Saudade de três dias quebra a gente. Deixa a casa intacta, mas quebra a gente.
Amanhã elas voltam, filhos. E a gente recomeça. Vamos correr pela casa, perigosamente, vamos tentar quebrar um vaso, que tal?

Do seu pai,
Pedro.