Teresa, Irene e João,

quando a luz apaga e a gente tem certeza de que tudo que estava ali, antes, desapareceu – pelo simples fato de não mais vermos; quando a cachoeira parece ter águas que sobem; quando o celular não atende; quando a cortina já não consegue esconder que é dia e precisamos acordar; quando o cheiro é desconhecido às narinas; quando a gente senta no meio-fio, mas nada acontece, nem mesmo o caminhão do gás passa; quando o inverno acontece no verão; quando o barro desmancha antes de ser vaso; quando não cabe um sorriso no instante; quando a música para; quando uma sombra paira; quando o disco arranha; quando o jornal voa das nossas mãos; quando queremos – e sabemos que não teremos – o abraço; quando sobra um lugar na mesa; quando a foto vira algo importante para a memória; quando a gente reza sussurrando; quando a gente fica mais de dois minutos e dezoito segundos em silêncio um ao lado do outro; quando determinada música toca e o coração desacelera para bater junto com o surdo, lento, lento; quando o trânsito não anda; quando a hora não passa; quando a hora passa depressa demais; quando parece segunda-feira, não importa que dia realmente seja; quando acabam as palavras. Tristeza é quando tudo isso acontece ao mesmo tempo.


Do seu pai,

Pedro

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Bivó: descanse em paz.
Hoje estamos muito tristes. Mas sempre iremos lembrar de você com muita alegria.
Obrigado por cada dia, cada sorriso, cada abraço.