Irene e João,

uma amiga do papai – que mora bem longe do Brasil – conversa muito com ele pelo Whatsapp. Whatsapp é quando a gente usa o telefone sem falar (e sem ser para dar aqueles dois toques rápidos na tela, que viram um coração no Instagram). É curiosa, a amizade do seu pai com essa moça. A gente se conheceu porque a amiga do papai, antes de ser amiga, mandou uma mensagem muito bonita por e-mail. E-mail é um correio que não precisa de selo, nem de envelope, mas que dá uma saudade danada do moço de roupa amarela que batia palmas no portão. Desde o dia que essa mensagem muito bonita chegou, a gente se aproximou. Ela adora sua mãe – mesmo sem conhecê-la ao vivo. Ela se diverte e se emociona com vocês – mesmo sem jamais ter ido ao parque brincar com a gente. Ela viu Teresa nascer – mesmo sem estar lá, no dia do parto da sua irmã. Ano passado, a gente marcou um jantar com ela em Londres. Não deu. A gente marcou um café. Não deu de novo (a gente era turista e turista é fogo, não para quieto). Marcou um vinho. Nada. Marcou bobeira e não conseguiu conhecer, ao vivo, essa moça da mensagem bonita que é amiga do papai. A gente continua se falando.
Amor também se rega de longe.
Confesso que fiquei bem preocupado, pouco tempo atrás, porque no meio de tantos acontecimentos na vida dela, senti que as suas palavras que chegavam no Whatsapp, nas nossas conversas, eram palavras novas de se ler: palavras tristes. E fiquei triste por ela. Mesmo sem conhecê-la, sinto que a conheço. Foram semanas duras para essa amiga do papai. De repente, o silêncio. O silêncio que precede algo novo, pensei. O silêncio que grita as notícias mais importantes. O silêncio que esconde, por pouco, o barulho estrondoso da mudança. E ele veio. Inesperadas, palavras lá de longe, e fotos, e sorrisos, e corações. A moça, filhos, tinha atravessado a maré. Recebeu uma visita inesperada, alegrou o coração, voltou a sorrir: o irmão da moça foi lá, ficar um tempo com ela. Pelo Whatsapp, um sorriso e as aspas dela abraçando a frase: meu irmão veio me visitar. Pelo Instagram, a foto do irmão lindo dela. Dois toques rápidos na tela, para virar um coração. A moça e o irmão. A presença dele fez com que ela voltasse a si. A chegada dele foi o barulho estrondoso de quilos de alegria despencando no chão peito.

Sabe, filhos, talvez um dia eu conheça essa moça. Talvez um dia sua mãe possa dar um abraço nela. Talvez, quem sabe, essa moça apareça, sem avisar, para brincar com vocês na praça. E talvez, filhos, essa moça tenha aparecido no nosso caminho apenas para relembrar que vocês tem e terão um ao outro – para sempre.

 

Do seu pai,

Pedro.