João, Irene e Teresa,

esse é o meu Testamento. Leiam com muita atenção.

"Quando eu morrer, gostaria de deixá-los com tudo o que tenho: sua mãe. Esperem. Ainda pretendo viver muito – apesar de me achar bem velho nos fins de tarde de verão, quando a energia já não é mais a mesma e mal consigo correr atrás de vocês. Mas é um equívoco achar que existe um tempo onde se diz tudo o que pretende, de uma vez. A gente vai dizendo aos poucos, assim é a vida (o ideal é que, todos os dias, diga-se e repita-se tudo o que realmente importa – aqui em casa funciona dessa maneira: todos os dias, vocês dizem que amam a sua mãe, dizem que ela é linda, dizem que ela é a melhor, elogiam seu cabelo, mas principalmente seus gestos e conquistas). Meu pouco a dizer hoje é um Testamento. Se eu deixar casas, poupança com dinheiro dentro, essas coisas mais bestas, não deem valor. Dividam, apenas. Mas fiquem o meu melhor: sua mãe. Minha maior conquista, minha maior realização, meu único sonho que parecia inalcançável, minha inspiração, meu norte. De todos, o maior bem. De tudo que tenho comigo, aqui, nessa vida, sua mãe, minha esposa, é o mais valioso e importante personagem da minha própria existência. Fiquem com ela. Perto. Muito perto. Sejam a extensão dela, como são hoje, ainda pequenos. Cresçam por fora, mas permaneçam de um tamanho que caiba no colo dela. Deem colo – em certos momentos (sei que não parece) ela necessita de um pouco. Ofereçam seu tempo, o tempo que não tiverem, ofereçam. Estejam disponíveis. Chorem juntos, de alegria e de tristeza. Ambos fortalecem o coração e demais músculos que usamos. Beijem. Beijem sempre. Beijo de filho cura qualquer dor, é remédio melhor que o tempo. Não escrevam cartas, falem. Como o fazem, hoje. Digam tudo a ela, que tem os melhores ouvidos. Os melhores olhos. Os melhores beijos e abraços. O melhor colo. Os melhores pés para correrem atrás de vocês nos fins de tarde de verão.
Ainda pretendo viver muito. E vou. Ao lado dela, porque eu não sou besta.
Mas, filhos, caso eu venha a morrer, gostaria – apenas – de deixá-los com ela. Que é a melhor dentre todos nós."

Do seu pai,

Pedro.