Irene,

certa vez, na livraria Letras & Expressões, esbarrei em Ferreira Gullar. Eu buscava Federico Andahazi, dei essa sorte maior. Gullar. Pedi desculpas, ele disse que não havia sido nada, eu disse que sim, que havia sido. Desculpa, quero apertar sua mão. E ele me estendeu a sua mão esquerda, enquanto estendi a minha direita e, diante do impasse canhoto, ele sorriu de lá, eu ri de cá, arrisquei um abraço rápido, direita-esquerda, esbarramos de novo, por onde ir, não pensei, fui, até logo, livraria pequena é uma alegria – isso, sim, pensei.
Ferreira Gullar (e lembro de cabeça por causa de Fagner, que gravou isso num vinil que sua avó tinha e tentava furar com a agulha do som 3 em 1 prateado que ficava na sala de casa, no Espinheiro) escreveu:
"Uma parte de mim é todo mundo, outra parte é ninguém, fundo sem fundo. Uma parte de mim é multidão, outra parte estranheza e solidão. Uma parte de mim pesa e pondera, outra parte delira. Uma parte de mim é permanente, outra parte se sabe de repente. Uma parte de mim é só vertigem, outra parte linguagem. Traduzir-se uma parte na outra parte, que é uma questão de vida e morte: será arte?".
Saí da livraria depois daquele esbarrão, pensando na tradução de uma alegria. Direita, esquerda, direita, esquerda. Poder escolher entre o sol de rachar ou as sombras dos prédios antigos na zona sul do Rio. Esqueci de comprar o livro que tanto queria, de Andahazi. Li muito tempo depois. Acabo de ouvir Fagner. Uma parte de mim queria dormir. Outra parte me trouxe até aqui, nesta madrugada de domingo.

Do seu pai,
Pedro.