João,

há uns anos, escrevi assim, num livro: voa, liberdade é ter medo das alturas. Voar é bom. Voar de avião é trivial, para qualquer um. De balão é um contato imediato com o divino. De asa delta é o meu maior medo da vida depois de morcego, gosto nem de pensar, que dirá falar sobre esse pesadelo nas nuvens. Não. Vamos falar do voo que dá mais frio na barriga. É quando a mãe da gente garante que vai dar certo, bora, ela chama assim, bora, bora, assina embaixo, pode confiar, manda esticar as pernas, abrir os braços, olhar para a frente, vou soltar suas mãos, avisa, vou soltar suas mãos e.

E.

E.

E.

E.

Você voa.
Eu sei, a gente fica uns segundos sem palavras, equilibrado apenas pelo malabarismo mais maluco que pode haver, a confiança. Mas se ela diz que você pode voar, vá de olhos fechados, braços abertos, pernas esticadas. Com ou sem medo, vá. De olhos fechados, repito. Aliás, eis um boa lembrança do momento. O piscar de olhos quase imperceptível, um cochilo de milésimo de segundo, a luz quando falta e volta no mesmo instante, o violonista quando pausa sem aviso, a bicicleta sem freio na ladeira, o pensamento dando voltas e voltas e voltas na velocidade do som. Silêncio no peito. Respira. Aquele instante em que você, depois de confiar, desliga os olhos e vê o filme que passa na testa, pela parte de dentro. Quando abre os olhos, apressadamente, o seu desafio particular à dúvida, ela ainda está lá. Sua mãe. Pode confiar.

Do seu pai,

Pedro.