Irene,

conheci um cara que amava carros. Trabalhava muito, de domingo a domingo, de garoa a garoa, esculpindo um gráfico de crescimento monetário no cofre bancário para concretizar esse amor. Depois de dois anos trabalhando duríssimo, num local um pouco doente, um pouco sem sentido, sem janelas, fazendo coisas que geralmente não gostava, tomando remédios que o faziam depender deles para dormir profundamente, mas levando uma vida rasa, sem muito tempo para a filha (que já estava enorme, precisando tanto dele – os fins de semana eram pouco), enfim: depois de dois anos trabalhando como uma mula que carrega pesos quase sempre equivalentes ao seu próprio – ou mais – ele, que amava carros, foi num sábado qualquer a uma concessionária e comprou o carro que queria. Era um carro branco, alto, com bancos de couro, motor potente, teto solar, tinha um rádio que tocava músicas até do seu celular sem que ele precisasse de um fio para conectá-los. Um carro que ele amava, agora era seu. Não cabia na garagem do pequeno prédio onde ele morava, mas era o carro que ele amava. Cara esquisito.
Também conheci um outro cara que amava roupas. E um outro que amava jogos. Ainda um outro que amava celulares (esse era engraçado). Conheci (lembrei agora) um cara que amava, ao mesmo tempo, motos, barcos e pagar para pilotar o avião dos outros (esse era triste). Um cara não muito amigo, mas não muito distante, amava fumar (morreu recentemente, tinha uma cabeça boa para certas coisas, uma mente péssima para outras, um pulmão frágil). Caras notáveis.
Claro que durante todo esse tempo, acabei me deparando com caras que amavam quadros. Filmes. Músicas. Amavam correr, nadar, pedalar. Fotografar. Caras que amavam escrever. Um cara (um único cara, especificamente) que era político mas, apesar disso, amava ajudar os outros. Caras incríveis.
Seu pai tornou-se um cara comum, filha. Ao observar esses amigos, caras que admiro, e amam tantas coisas distintas, notei que meu amor entrou num funil e, pelo lado estreito, saiu quem sou, hoje.

Amo apenas pessoas. E, algumas delas, feito essa mocinha da foto acima, amo mais que a mim mesmo. 

Do seu pai,
Pedro.