João,

em 1982, vi minha primeira Copa do Mundo. Lembro da sensação de descoberta do mundo mágico que existe – e resiste – quando bola e grama se encontram. Não tem a ver com patriotismo, paixão, cerveja, nada disso que tentam nos ensinar ao longo da vida. É bem mais simples. Para um garoto como eu, na época com seis anos, essa descoberta girava em torno do que acontecia depois que as partidas acabavam. O meu interesse em ver Sócrates, Zico, Júnior, Falcão, Cerezo, Éder e companhia em campo, no fundo, servia para que depois do show deles, eu fosse na rua jogar. Tentar reproduzir uma pancada do Éder – como bom canhoto, era dele que eu gostava mais. Um drible do Zico. Um calcanhar do doutor. Lembro que, jogo após jogo, minha certeza que sairíamos campeões aumentava. No jogo contra a Argentina (meu pai deve saber contar melhor que eu essa história), algo me tirou do sério e, por segundos, disse que estava com raiva e que seria melhor a Argentina ganhar mesmo. Até sair um gol nosso, claro. E veio a Itália. Paolo Rossi. E veio, no dia seguinte ao jogo, uma das imagens mais marcantes da minha infância – e creio que, de certa forma, o meu primeiro olhar sobre o jornalismo, ainda que não soubesse o que era isso. A capa do Jornal da Tarde com um menino que devia ter a minha idade, chorando, com a camisa do Brasil, e a manchete: "Barcelona, 5 de julho de 1982". 

[reprodução JT/O Estado de São Paulo]

[reprodução JT/O Estado de São Paulo]

Minha tristeza, um dia antes daquela capa memorável, havia durado pouco, quase nada. Depois da partida, uma pelada, uns chutes de esquerda, uns dribles, nada de calcanhar, porque eu não era tão bom assim, e pronto. Fim da tristeza, vida segue, até a próxima Copa, seja lá onde for.
Ontem, filho, você viu o seu primeiro jogo de Copa do Mundo. Torceu. Brincou com os amigos no intervalo. Torceu. Entendeu que a vitória não foi fácil. Perguntou que língua é falada na Croácia. Voltou a brincar. Antes de dormir, mais umas questões sobre Neymar, Oscar, o gol contra de Marcelo, o juiz japonês que estava ali para nos ajudar. Dormiu. Acordou como se nada tivesse acontecido e, repentinamente, o assunto voltou. Pegou o jornal, passou rapidamente as folhas até chegar no caderno especial da Copa, abriu, leu. Silenciosamente, sem pedir ajuda desta vez. Decodificando sozinho, mas pelos olhos do jornalismo (que você sequer desconfia do que se trata), o jogo de ontem.
Temo que esta seleção nos dê, infelizmente, uma capa de jornal triste até o fim do torneio. Mas torço que não. Torço por você, filho.

Do seu pai,
Pedro.