Irene,

é importante que sua mãe corte o seu cabelo. Por tantas razões, que apenas esse texto não daria conta, sozinho. Passa pela relação de confiança entre duas pessoas, pelo entendimento de que o que somos tem pouco a ver com a nossa aparência, passa pela maneira como nos enxergamos – ainda que de costas para o espelho e diante de um outro. Mas quero falar de uma coisa muito, muito simples na experiência que você e sua mãe passaram. Ela cortou a sua franja. Que estava linda, mas longa. Cobria os seus olhos. Deixava uma cortina leve, suspensa sobre eles. Em momentos de cabeça baixa, praticamente tirava a visão do que estivesse bem diante de você. Nas corridas pela praça, podia esconder um obstáculo qualquer. Nos diálogos (são muitos) com o seu irmão, poderia fazê-lo ter a impressão de que você não o olhava nos olhos.
Sua mãe cortou a sua franja. A habilidade que ela tem de nos fazer ver melhor o que está bem diante de nós – você vai notar – é demonstrada diariamente. Ela e sua tesoura afiada, que brilha, elucida, corta e esclarece, revela. Sua mãe tem o poder mágico de cortar as nossas franjas, por mais irônico que um careca, como eu, fale isso. Sua mãe abre as cortinas para os nossos futuros, todos os dias. Sempre que ela se oferecer para cortar o seu cabelo, lembre disso, filha.


Do seu pai,
Pedro.