João,

é importante deixar o cabelo crescer. Por tantas razões, que esse texto aqui, coitado, seria um corte desajeitado caso eu tentasse falar sobre tudo. Passa pela relação do desapego que podemos ter sobre determinadas coisas (por mais importantes que pareçam ser), pelo entendimento de que o que somos nada tem a ver com o que aparentamos, passa pela maneira como desafiamos o olhar do outro sobre nós mesmos – como se pré-estabelecer signos (cabelos curtos, cabelos longos) nos colocasse em caixas. O cabelo caindo sobre os olhos, filho, sai num sopro. Voa na corrida pela praça com os amigos, na descida da ladeira, na bicicleta no parque, na varanda – numa parada rápida para ouvir o mundo lá fora. Sua mãe diz sempre para você olhar nos olhos das pessoas. E para um cara que consegue prestar atenção em tanta coisa – ao mesmo tempo – como você, isso soa até engraçado.
Sua mãe adora quando seu cabelo cresce.
A confiança dela na sua capacidade de observação, no seu senso de direção inexplicável (mesmo numa cidade grande e caótica como São Paulo, mesmo numa vida similar a isso), na sua maneira silenciosa de aprender, de ver adiante, de olhar um calendário na porta da geladeira e, repentinamente, entender o tempo (lembra, filho, um dia desses – há dois anos, no máximo – você pediu para sua mãe não correr no caminho a natação pelo simples fato de que não chegaria atrasado, porque você não entendia o tempo). Sua mãe tem o poder mágico de saber qual o tempo certo de cortar o seu cabelo. E de, até esse momento chegar, deixar que a cabeça acorde um pouco bagunçada mesmo. Porque ninguém acorda sabendo o que vai ser do dia.
Sempre que ela fizer cafuné no seu cabelo, lembre disso, filho.

Do seu pai,
Pedro.