João,

ensaiei não escrever esse texto. Resolvi escrever um ensaio. Ensaiar. Um ensaio do que acredito que pode ser a relação de vocês com o que nos cerca – de muito perto – e chamamos de família. Um ensaio apenas, sem palco, sem holofotes, sem máquina de fumaça. Um ensaio fora do ponto de vista literário, mas do ponto de vista musical. A banda que estuda seu próprio som no momento em que prepara acordes e os coloca intuitivamente, nos tempos certos, num comando cerebral que, para mim, é inexplicável: estou tocando, não tenho tempo de tocar e prever (ao mesmo tempo) o que virá na música mas, sim, a nota cai no lugar certo, no tempo certo. Estou ensaiando agora. Escrevendo enquanto penso enquanto crio coragem enquanto procuro entender as razões pelas quais escrevo enquanto olho para quem escrevo: vocês.
José Saramago – vejo uma coleção (quase) infindável de livros dele na estante.

 

 

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Filho, prefiro recomeçar do zero.

Vamos pelas vias de José Saramago (tudo dele está na nossa estante, leia quando o coração pedir). Num breve e raso resumo apenas para contextualizar o que se passa aqui: Saramago é um escritor português que, dentre muitas obras relevantes, concentrou (em uma delas) a tradução de grandes chagas contemporâneas, num Ensaio Sobre a Cegueira – livro que decodifica essas tais mazelas em torno de uma epidemia de cegueira branca, crônica, que destrói uma fração da civilização pela sua própria inabilidade de lidar com o novo: o nada, o vazio. Quando olho para essa foto (e estou a fazer isso desde sábado) e os vejo a olhar para o nada (o horizonte), um vazio azul em cima, quase verde embaixo, me deparo com a minha própria incapacidade de lidar com o que quero e o que preciso dizer. Insistentemente, você vai notar, recebemos recados de que devemos dizer o que “é preciso” e não o que verdadeiramente queremos. Como se o Buzz Lighyear tivesse que dizer “vamos em frente, pessoal, acreditemos!” e não “ao infinito e além!”. Um absurdo, né?
Pois bem. Vai o que quero dizer.

Até dia desses, você chamava esse cara de vovô. Porque ele é o marido da sua vovó, ora. Agora, um pouco maior, você o chama de Cris (com um “s” impecável, no final – ele adora te sacanear por conta disso). Esse seu vovô, desde a sua chegada, é um companheiro e tanto nas suas aventuras. Topa as suas paradas mais perigosas. Lutas. Mergulhos. Desafios. Corridas. Cócegas. Sempre que o reencontra, você recomeça do zero – como esse texto. Tudo volta. E vocês se redescobrem, brincam, se entendem e desentendem, naturalmente, como a vida é, portanto. Cada período de tempo que estão longe, é como uma cegueira súbita, branca, mas que é curada, sem muitas explicações, diante desse reencontro, redescoberta. E assim vocês dois me ensinam um mar de coisas.
Sua mãe e eu, diante de um dilema compartilhado (sempre falamos sobre sido criados em núcleos familiares pequenos – apesar de termos três irmãos cada um e sofrido com a distância ora geográfica, ora emocional, de cada um deles, de ambas as partes, dela e minha), sonhamos em ter uma família grande. Você, Irene e Teresa, para nós, são isso. Uma família grande. Um núcleo que sempre estará vinculado, pela simples existência de cada um, e de todos. Mas além de nós todos – e cada um – o entorno conta com arrecifes que nos protegem dos tubarões. São seis tios. Duas avós. Três avôs (porque além do Cris – mesmo que você não o chame mais de vovô, ele é, sim – ainda tem o vovô Careca e o vovô Angelo). Bisavô. Bisavó. Tio-avô por parte de mãe (ri sozinho agora pensando nisso: sua reação ao encontrar seu tio-avô Beto e pensar no desenho do Titio-avô). Alguns tio-avôs por minha parte. Primos de segundo grau. Primos que não são mesmo primos, mas quase-irmãos da vida. Uma família enorme. Um horizonte pleno, azul e quase-verde, tranquilo. Parece nada, quando estamos distantes. Ilusão de ótica. Mais um tipo de cegueira nossa. Vocês me ensinam que é sempre possível recomeçar a nadar. Vocês me ensinam que é possível ajudar o outro quando não dá mais pé. A dar a mão quando a correnteza está forte. A avisar quando a onda vem, grande, assustadora. Vocês me ensinam muito. Você e o Cris. Que a sua irmã, Irene, também chama de vovô. Vocês todos – e cada um de vocês dois aí, olhando para o nada-tudo – me ensinam a recomeçar.

Do zero.

Do seu pai (e do seu amigo-genro),

Pedro.