Teresa, Irene e João,

outono foi feito para isso. A espera pelo vento frio, escorregadio, que passa pelas menores frestas, por baixo das mais fechadas portas, vento atento que encontra persianas semi-abertas, janelas escancaradas, corredores-convite que dizem vem, vento, corre, é por aqui – até que nos pega de surpresa e traz arrepios de braço, nuca, perna. E ai de quem tentar fingir desprezo. Logo ele volta raivoso, capaz de abrir porta de quarto, esfregar-se pelos nossos pés, derrubar uns papéis no chão para avisar que está aqui – e já não o esqueceríamos mesmo. Outono foi feito para isso, também. Deixar o sol preguiçoso, mais tempo deitado que de costume, no começo do dia, no fim da tarde. Deitado, preguiçoso, generoso. Doura a luz, o asfalto, a copa das árvores, o chão. Espreguiça e oferece. Toma, sou eu, vim porque arrepio tem medo de aconchego. E a gente lá, a pensar que sombra cega e contraluz ofusca e que, ainda assim, prefere colocar a pupila para trabalhar dobrado para ver o sol acenar pela última vez, hoje. 
Sabe, filhos, uma das grandes descobertas, das mais dolorosas para o seu pai, foi que essa existência aqui obedece a uma lógica de ciclos. Hoje, no fim da tarde, o aconchego de vocês chamou o sol para sentar. Vem, sol, vem que lá fora o vento teima em desafiar quem sempre ganha. Dá aqui um abraço na gente, sol. Vamos fechar o ciclo de hoje porque amanhã, logo cedo, quando os pés tocarem o chão frio, a gente vai lembrar que outono foi feito para isso. Sentir arrepios, mas se aconchegar – ser o sol do outro, por um instante que seja.

Do seu pai,
Pedro.