João, Irene e Teresa,


a sensação térmica era de seis graus negativos. Por conta do vento – invisível. O sol, bem diante dos olhos, quase ao alcance das mãos, mentia; fingia nos aquecer, mas não: seis graus negativos, o vento invisível e o sol a irradiar luz (mas não calor, contrariando algumas Leis – a isso servem leis, para serem contrariadas). O único som vinha de dentro. Em voz alta, seus nomes me vinham e a certeza de que estavam ali, comigo. E mais uns minutos, a voz alta corrigia: estavam, estão e estarão ali ou em qualquer outro lugar. Pela primeira vez na minha vida, senti saudade. Via vocês, ao redor. Ouvia suas vozes. O calor de vocês era o único capaz de me aquecer – e aquecia. E logo chorei, silenciosamente, enquanto a voz alta gritava por dentro. O melhor lugar para sentir saudade é no deserto, diante da certeza que nada vai mudar o estado das coisas. Exceto o que nos ocupa por dentro. Lá, diante do nada, vocês estavam comigo – e o que era saudade, o vento frio levou, o sol aqueceu, o silêncio cantou. O Deserto do Atacama é um lugar que vocês três precisam ir, quando estiverem maiores, filhos. Juntos ou não. Comigo ou não. A solidão será a mesma. E a certeza de que existimos uns para os outros também.


P.S.: passei boa parte do fim da tarde e começo da noite de ontem olhando para São Paulo. Imaginando quanta solidão pode habitar os milhões de apartamentos com pouco vento, luz artificial e falta de calor humano nas relações. Tive vontade de gritar em voz alta: saudade a gente sente no deserto.