Irene,

se eu pudesse imaginar uma filha, ela seria –antes de mais nada– destemida. Cada vez que a porta do nosso pequeno e confortável universo familiar abrisse, ela teria a coragem de encarar o mundo lá fora, de frente. Vestida com as roupas e as armas do protetor que enfrenta dragões. Com ou sem lanças, seria ela a cuspir fogo no dragão, coitado. Pudesse traçar um caminho para essa filha, escolheria o atalho sem asfalto. Percursos fáceis, poucos calos. Minha filha refutaria a ideia de ter pés de cinderela que esperam um sapato que se perdeu na noite anterior. Segue a vida, segue em frente, segue o rumo –pensaria ela. Filha, essa da imaginação, teria prumo o suficiente para cometer apenas as grandes loucuras –as pequenas só dão dor de cabeça e dor de barriga. Seria engraçada, porque a Terra já é muito chata além dos pólos. Seria agregadora, um ímã. Olharia no fundo dos olhos. Dançaria em lugares públicos. Abraçaria forte, intensamente, os que a amassem. Ninguém deveria abraçar sem amor (é injusto com o amor, é injusto com o gesto de envolver alguém com as mãos, e braços, no colo). Dividiria o espaço com mais um, mais dois, mais quantos fossem necessários. Seria quase sempre a primeira a despertar –e acordaria também os que estivessem por perto, logo cedo, porque o dia passa tão rápido. Lembraria do nome das pessoas. Lembraria de nomes e rostos e lugares. Cheiros e sabores. Olharia no fundo dos olhos (eu sei, devo ter dito isso em algum lugar aqui, antes, mas isso para essa filha seria importante –assim, repito). Se eu pudesse imaginar uma filha, se essa filha pudesse existir diante de tantas exigências da minha imaginação, ainda assim, ela não chegaria aos seus pés. Você, filha, é a maior surpresa que o Universo –o grande, não o nosso, pequeno e confortável– poderia me trazer. E há dois, ele trouxe. Parabéns, Irene. São dois anos de um amor inimaginável. Minha gratidão eterna ao Universo por esse encontro. Por tê-la como minha filha.


Do seu pai,

Pedro