Teresa, Irene e João,

todo rio tem uma nascente. Visto lá de cima, quando voamos, e por maior que seja, ainda assim, passa desapercebido pelos mais atentos olhos. Mesmo o Amazonas, aquele mundo, começa em gotas de degelo. Não se deixem enganar: há sempre um princípio para um grande rio. Um fio estreito. Nascente, onde mora Manoel de Barros, espécie de passarinho que canta poema. Onde, quase sempre, há um pôr-do-sol para se dizer silêncios profundos a quem senta ao lado. Quando se caminha muito, e se perde, tudo que a cabeça pensa é em nascente, para beber esperança e pontos cardeais. A gente se perde tanto –e se encontra sempre nela, na nascente. Haja nascente pelo mundo para nos ligar –a nós mesmos. Cada nascente, ainda que modesta, que se veja miúda, guarda o segredo enorme do que se abastece sozinho, dos outros, de tudo, até tornar-se finalmente navegável, mergulhável, nadável, admirável. Amor. Amor é um rio, filhos. Nasce ali, quietinho, ao som de poemas cantados ou ao silêncio do sol que não volta mais (hoje). De mãos dadas, em caminhadas onde nos perdemos e nos encontramos e nos permitimos manter a esperança viva num ponto do peito perto de um ponto cardeal. Amor é um fio, filhos. Nos liga estreitamente, faz festa no peito com direito ao coreto da praça todo iluminado, com bandinha tocando em cima. Desde que cada um de vocês chegou, minha vida renasce na mesma nascente. Onde o amor começa, onde somos pequenos, miúdos, mas logo nos tornamos amazônicos. Obrigado pelo Dia dos Pais de hoje. Obrigado pelos seus olhos atentos (e pelos meus).


Do seu pai,

Pedro.