João,

parece que foi ontem. A descoberta do jambo. Carnaval. Picolé. Eric Clapton. Uma varanda bem à porta, sem teto, onde era possível ver o ipê amarelo abençoar a casa inteira. A mamadeira-trompete. Banheira meio cheia –otimista que só ela, nem conhecia a Cantareira. O olhar apaixonado para uma mãe que só tinha olhos para você. Avô do boneco. Avô da careca. Avó de Brasília. Avó de Recife. E ainda outro avô, do surf. Um amigo para toda a vida –descoberto tão cedo que as palavras nem existiam entre vocês. A escola da vida, a vida na escola. Granizo, sol, chuva, mar, montanha, tudo junto, ao mesmo tempo, em um só dia. O sotaque que não é nosso, nem de ninguém. É seu. As palavras, ao encontrá-lo, ergueram uma cidade com arranha-céus fazendo cócegas no seu próprio céu da boca. O menino que trocava ideias. Troca, ainda. Troca sem dor. Não se importa: é minha, sua? Tanto faz. É nossa. Você é dos nossos. É dos meus. Dos meus sonhos remotos, tão distantes, de uma capa de revista que eu pensava vê-lo, mas não: você veio tão melhor, tão acima de quaisquer expectativas. Ah, as expectativas. O guru mira o fundo dos meus olhos e diz que não vem de hoje, nossa relação. Eu sei. Sempre soube. Lá vem você, me ensinando mais sobre mim mesmo que qualquer pessoa. Quantas noites eu chorei, filho, silenciosamente, com você no colo? Minhas dores de crescimento, meus medos, minhas vontades. Aí vinha você para os meus braços. Quantas noites eu contei segredos que nem eram meus, nem seus –segredos imaginados pelo seu pai, que jamais acreditou em ficção. A ficção não existe (coitado de você, que vai ouvir isso uma vida inteira). Aliás: vai dar tudo certo (vai ouvir isso também, o tempo inteiro –talvez até possa ler essa frase como um mantra tatuado nas suas lembranças). Meu amor, minhas certezas, minha vontade de realizar apenas para você. Ao centro do meu universo, pequeno e infinito, olhando para mim com meus próprios olhos. O filho-espelho. Parece que foi ontem. Foi há seis anos. Seis anos. Como eu cresci rápido, João. Obrigado. E parabéns, filho. Pelo seu dia, pelo que você é, pelo que você será.

 

Te amo –mais que tudo nesse mundo.

 

Do seu pai,

Pedro.