Teresa e João,

olhem para Irene. Ela se diverte. Veio para isso. Papai, papel – pediu. Começa a desenhar, um passarinho azul, parece o mascote do Twitter. Irene é um tweet. Resolve, em 140 caracteres, o que for preciso. Não perde tempo, porque tempo é para se divertir. Quem gasta tempo sem diversão entra no Facebook e opina. Opina sobre futebol, religião, política, morte, vida, cabelo, pé, amor, paixão. Quem tem tempo e uma senha gratuita, gasta com Facebook. Irene, não. Um tweet. @IreneBFonseca diz: quando me divirto, resolvo. Resolve os problemas dela e os nossos. Bom dia, filha. Adia, papai. O bom dia no dialeto dela é um pedido para que tudo fique para depois, exceto ela, que está sempre a postos para se divertir agora mesmo e provocar interrupções bruscas nos assuntos.

 

– Vamos tomar café da manhã, fi (interrompe).

– Papai, dança, dança, papai.

 

E começamos a dançar enquanto ainda busco uma música. Dançamos sem música. A música está na cabeça, filhos. Num rompante de busca por algo que não perdi (a música nos protege, disse Amaury, dentro da sua guarita musical que toca alguma música para nos dar mais segurança; música é nossa segurança, também disse Amaury; Amaury disse tudo que queria ouvir: música). Larguei o celular ao lado do fogão tocando, alto, À Palo Seco, enquanto passava manteiga no pão e começava a dançar com sua irmã. Desesperadamente, gritou em português Belchior: sei que assim falando pensas que esse desespero é moda em 76. Eu tinha um ano e o desespero era moda. Irene tem dois anos. Irene não se desespera com nada. Dança. O desespero tem medo de quem dança. Venham, filhos, venham com a sua irmã dançarina. Mexam os braços, as pernas, subam na mesa, dane-se. O desespero tem um medo danado, tem um medo que se pela de quem amanhece com música alta e dança. Num tweet, ela dança, pede melão, pão com presunto, beija você (João), beija você (Teresa), beija sua mãe, beija Ju, beija eu, beija eu, beija eu, me beija, deixa o que seja ser – Marisa assume. Beija o mundo desesperadamente, porque felicidade é um desespero que nada teme. Felicidade é um botão de shuffle bem no meio da vida. Nem Alucinação, Belchior, é mais feliz. Boa noite, Xangô. O Rappa desafia o tempo (ainda é cedo, Falcão, bom dia), começa a tocar a nova música e ela ainda dança a anterior. Anjo de Iemanjá, um barco cheio de flor, essa menina.

Do seu pai,

Pedro