Irene e Teresa,

[arte maravilhosa de Renata Miwa sobre uma foto que fiz do seu irmão em junho de 2014]

[arte maravilhosa de Renata Miwa sobre uma foto que fiz do seu irmão em junho de 2014]

olhem para João. Mas olhem sem pressa, porque à primeira vista ele nos engana. Parece não prestar atenção. Parece, por vezes, nem estar ali – diante dos olhos da gente. Parece pensar em todas as outras coisas, menos na que deveria (ou pensamos que ele deveria). João pensa por dois. Ou três. Na maior parte das vezes, aliás, pensa por cinco. Pensa pela casa inteira. João é raiz e – como bem dizia o doutor Zé Armando – pensa muito. Seu irmão conserva os pensamentos em desordem e os rompantes de quereres em dia (isso quem diz sou eu). Sim: exercita o pensar, o tempo inteiro. Sim: age impulsivamente, porque odeia perder tempo. Se João não fosse João, seria eu. Daí, filhas, vem uma coisa que um dia irão perceber, talvez hoje, ao ler isso aqui. Faz tempo que ele e eu nos encontramos. João e eu temos muito tempo, muitas vidas. No dia que João nasceu, nasci também – mas nos conhecemos há mais tempo que essa vida.
Deixei para trás, com a chegada dele, um Pedro mais egoísta, rancoroso, autossuficiente. João é a minha maior lição de vida como homem, como pai, como marido, como amigo.

[É duríssimo falar dele, meninas. Perdoem. Nesse exato instante, faço uma pausa para respirar, para estancar o choro, e aproveito para contar-lhes: ouço Lamento Sertanejo, cantado por Gilberto Gil. Se puderem, ouçam a mesma canção. Tem a ver com se desgarrar do que o mundo fez da gente para ser o que devemos, o que verdadeiramente sempre fomos – ou deveríamos ser. Tem a ver com as descobertas que fiz com esse menino que vocês têm como irmão.]

João é uma paisagem humana que se assemelha, aos meus olhos, ao encontro do sertão com o cerrado. Ainda que ele próprio sequer tenha visto de perto esse encontro até o dia de hoje, acreditem: esse lugar é um espelho dele. Lugar de gente que, da terra seca, tira o milagre. Planta, colhe e distribui. Gente que crê na providência humana tanto quanto na divina e, por crer, faz com que tudo exista, queira Deus ou não. São reis brincantes, velhos de pastoril, príncipes sem castelo. A imaginação fértil planta; a vontade de meter as mãos pelos pés faz a colheita e a dança coincidirem nos calendários. João é ar, mas é terra. É água, mas é fogo. Amor é fogo. Amor é mar. Ele sabe. O amor dele por vocês é fogo que escorre dos olhos – água inflamável. O abraço de João em vocês é uma casa que recebe brisa, bem no meio do sertão (e do cerrado). O cuidado que ele tem com aquilo que ama é um tesouro que já vem com mapa, para ser descoberto. Aproveitem, filhas. O melhor irmão que poderia existir já existe. Está bem aí do lado de vocês. Foi o primeiro a chegar – tão generoso que é, não queria deixá-las esperando. Esperem. Falta só mais uma coisa. Olhem de novo para o seu irmão. À primeira vista ele nos engana. Olhem, porque ele é ainda melhor que qualquer coisa que eu possa dizer. Possa pensar. Possa imaginar.

 

Do seu pai,

Pedro.