João,

a sua frase foi: "eu nunca vou ficar longe, pai".

Essa semana, filho, você vai para Recife com sua mãe e suas irmãs. Vai encontrar com seu amigo Joaquim. Vai pegar onda com Cris. Vai passear com sua avó. Visitar seu bivô. Encontrar com sua bisa, com Carol, com Jó. Provavelmente, vai se esbaldar na sorveteria do vovô Vanvan. Vai matar a saudade de Pio (que saudade, meu amigo). Tempos bons, filho. Aproveite cada segundo. 

Essa semana, filho, vou para Pequim com pessoas incríveis, que tanto admiro. Vai ser uma experiência e tanto. Olivia, a mentora desse trabalho, me convidou e convite de Olivia eu aceito de olhos fechados. Na China, eles têm os olhos meio assim, fechados. Vou estar de olhos abertos para o mundo lá do outro lado deste mundo.

Olha aqui, filho.

Vou estar no futuro. São onze horas de distância – chama-se fuso horário. Ou seja: quando eu sentir saudade no café da manhã, amanhã, você estará jantando, ontem. Estaremos separados pelo muro intransponível  da saudade e do tempo. Longe nunca foi tão distante, filho. E a isso serve a saudade: para deixar o presente invisível.

Mas há um alento. O meu coração, o tempo inteiro, vai bater dentro do seu. Preste atenção, você poderá me ouvir sempre que silenciar um pouco. Sei que você estará ocupado demais em se divertir, mas na hora de dormir, talvez, me escute; na hora de dormir, ouça, sou eu: tum-tum, tum-tum. Direi que estou tão perto, mesmo que não pareça. O fuso cria o descompasso e me coloca fora de hora, desalinhando os relógios sem ponteiros – porque saudade, quando desponta, nos aponta para o vazio. Desaponta. Ponto. Mas por dentro, ouça, sou eu.

Eu nunca vou ficar longe, filho. 

Do seu pai, 
Pedro