Teresa (Irene e João: serve para vocês também),

de todos nós, você será a única que começa com direito a quintal. Sobre a sua cabeça, nada exceto o céu indeciso de São Paulo. Para o seu tamanho, o nosso pequeno espaço deve aparentar um mundo. E essa perspectiva, filha, pode acompanhá-la em toda a sua existência. Nos colocar do tamanho certo diante das possibilidades. Somos pequenos. As possibilidades e caminhos e horizontes – estes são o oposto. Repentinamente, mudar de direção: pode. Sentar e contemplar o nada: pode. Cuidar das folhas durante horas: pode. Aproveitar o sol: pode. Tomar banho de chuva: diria que é uma obrigação. Fazer uma roda de amigos: pode. Ficar absolutamente só, numa noite de lua, tentando entender como engolimos uma alma que agora habita nosso corpo: pode. Em certos momentos, lá no futuro, pensamentos tortos irão passar pela sua cabeça, tentando de alguma forma dizer que você cresceu, que o mundo diminuiu ao seu redor, que essas coisas não importam tanto. Filha, quando isso acontecer, vá para o deserto. Vá para o alto-mar. Vá para a floresta. O maior rio, chapada, vale, montanha. Vá. Coloque-se, de novo, pequena diante do que nos cerca. Veja, novamente, os horizontes te oferecerem cores sem nome. As possibilidades te darem placas de caminhos desconhecidos pelo meio do nada. Assista de perto o pôr-do-sol mais distante que seus olhos jamais viram e lembre que, depois, virá uma noite, depois outro dia, depois recobre a memória que esse ciclo vive em você. E não de um lado de fora qualquer. Sinta-se esmagada pela imensidão do espaço vazio, que nos coloca do tamanho certo para enxergar mais e melhor. Nessa pequenez, nunca te faltará quintal.

Do seu pai,
Pedro.
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