Teresa,

há exatamente um ano, presenciei um episódio e tanto. Um rio nascer. A primeira gota de chuva cair. O raio inaugural do sol entrar pela fresta da janela. Uma lágrima solitária escorrer pelo rosto ainda seco. Uma onda imensa quebrar numa parede de arrecifes. Um pequeno botão de flor deixar de ser botão e virar flor. Um sapoti cair do pé. Uma nuvem encontrar com outra e descarregar um clarão no céu. Um acorde anunciar que Cartola chegou ao toca-discos. O vento afastar as copas da árvore para a gente ver o azul que havia depois do verde. Há exatamente um ano, filha, tocou o sino de igreja numa pacata cidade do interior. Um cheiro novo saiu da cozinha e tomou conta da casa inteira. O galo cantou. O trem passou e apitou junto com a fábrica de tecidos. Há exatamente um ano. Um choro. Um sorriso. Um abraço. Um rio. Uma chuva. Um mar. O sol. O vento, as árvores, a flor. Cartola. O sapoti. O sino, a fábrica de tecidos, um perfume da cozinha. Era cedo e o galo, ainda que existisse um pelas redondezas, não havia acordado para cantar. Era cedo e saímos de casa. Porque você havia decidido que o mundo existiria, a partir daquele momento, para você. Há exatamente um ano.
Parabéns, filha. Que mundo lindo você me deu. Obrigado.

Do seu pai,
P.