Irene e Teresa,

num banho, a temperatura ideal para dois não existe. Na vontade de ter a água mais quente, fecha-se um pouco o registro. Na esperança de esfriar, abre-se tudo. Nesse vai-e-vem, minha-vez-sua-vez, deixa-que-eu-cuido-disso, a única coisa que acontece mesmo é a água não ficar quente do jeito que um quer, nem fria como o outro queria. Quente demais? Esquiva. Fria demais: arrepio. Testa-se, antes, com as extremidades. Os pés, os dedos das mãos. O mergulho vertical só acontece com a segurança de que a água está de acordo com o que o corpo espera. Espero que vejam nisso, filhas, o que são as relações. E de onde parte a tolerância com o que é a vontade do outro. A temperatura ideal para dois nunca virá. Hoje, talvez ela esteja mais quente do que queremos. Amanhã, pode ser que esteja perfeita para nós –  e fria demais para o outro. E que assim, dia após dia, a gente se abrace, dance, pule, se arrepie, se esquive, descubra com a ponta do pé se dá para entrar ou não, brinque com isso. E que o amor nos banhe. E que as diferenças escorram pelo ralo.

 

Do seu pai,
Pedro.