João,

 

há um debate em curso na sua turma. Um debate político. Aos 7 anos, filho, você e seus colegas têm a sorte do desconhecimento sobre certos períodos da nossa história. Períodos duros que deixaram, de herança, as cicatrizes mais perversas: morte, desesperança, abandono, desrespeito. O que ajuda a fazer um debate leve. Que bom. Bom, no plenário da sua turma, fiquei sabendo por Zana (diretora da escola): houve um momento da questão que levou o assunto para um embate direto entre você e um colega. Vocês falavam sobre Dilma versus Aécio. A primeira lição que quero deixar para você, filho, é sobre saber perder. Numa eleição democrática, seja ela na urna eletrônica ou na velha e antiquada utilização de cédulas de papel, haverá sempre um escolhido pela maioria. No ano passado, Dilma ganhou. Comemoramos, respiramos aliviados. Ufa. Mas suponhamos que Dilma tivesse perdido, que a maioria dos brasileiros tivesse feito a escolha de retroceder aos tempos esquisitos do liberalismo. Precisaríamos respeitar a legitimidade da vitória do outro – já que essa é uma das premissas básicas da democracia, além de também ser absolutamente comum numa relação de disputa: alguém perde, alguém ganha; e segue o jogo. Dilma ganhou, aqui estamos no segundo momento do debate entre seus colegas que me chamou a atenção. Em determinado momento – e espero que essa pequena fração do debate jamais se apague da sua memória – o seu colega-adversário (que engraçado, isso, vocês têm 7 anos) disse que era um absurdo Dilma continuar no governo, porque “o picolé de morango em Cabo Frio subiu de R$ 2,50 para R$ 3,10”. Você rebateu dizendo que agora muito mais pessoas tinham acesso a comida de verdade. João, meu filho, que bom que você existe. Olha, eu até tinha vindo aqui escrever um texto em tom de conselho de pai para filho. Mas você me dá cada rasteira. Vou apenas enaltecer seu pensamento, então. É isso mesmo, filho. A grande vantagem de ter governantes que tenham o mínimo de respeito com a maioria excluída (e não com as minorias acomodadas nos seus devaneios de riqueza, de compra, de posse – de, enfim, pensamento raso, egoísta e, sobretudo, insensível) é garantir uma certa preocupação com a vida de quem mais precisa – em detrimento da prática reacionária de olhar para a vida de quem já tem mais do que precisa. Alguns dos seus amigos da escola têm pais com muito dinheiro (e arrogância) e mães com muito laquê (e submissão). Aqui em casa, filho, a política é outra. Para começar, uma diferença de princípio: a voz da sua mãe é mais importante que a minha. Ela é mulher. Ela pertence ao grupo de seres humanos que já nasce com um olhar mais preparado para o outro. A mulher precisa ser o guia dessa humanidade – sem concessões: nas famílias, mas também nas empresas, nas escolas, nas ruas. Segundo ponto: aqui a gente olha primeiro para o outro, antes de olhar no espelho. É no outro que nos reconhecemos, evoluímos, criamos em nós os sentimentos de respeito e tolerância – que anda escasso. Terceiro, aqui em casa a política é para o bem-estar coletivo. Os indivíduos aqui são respeitados, mas apenas à medida que também respeitem a opinião do outro, que saibam ouvir, olhar nos olhos. Sem isso, não há diálogo. Não há exercício político que funcione diante da truculência, sabe? É como se a gente estivesse sempre aberto para ouvir o outro, filho, mas só se ele falar – e não rosnar. Por fim, mas não menos importante no meio disso tudo, filho: picolé de morango não é alimento.

Do seu pai,

Pedro.

P.S.: uma das grandes alegrias de vir para uma cidade menor é poder confrontar ideias, filho, mas saber que obrigatoriamente teremos que continuar convivendo com as pessoas que discordam de nós. Política começa assim. Você começou bem.

P.S. 2: virar o mundo de ponta-cabeça, filho. Sabe por que? Porque é hora de lutar contra a permanência. Hora de reinventar o mundo. Desinventar a nós mesmos. Inverter e subverter a ordem. E, quem sabe, num próximo debate na sua turma, convencer pais e mães a não mais pararem sobre a faixa de pedestres na frente da escola. Que tal?