João,

esse ano precisa de um bom banho. Daqueles de esfriar a cabeça e os raciocínios. Banho para desagoniar. Pensar no nada. Cantar desatinado, ainda que afinado – em respeito ao vizinho seu Geraldo, que é um senhor tão simpático quando passeia no fim de tarde pela nossa calçada e sempre pergunta: essa casa é uma casa mesmo ou é uma festa? Uma festa, seu Geraldo. E lentamente ele escorre sem parar pela rua, enquanto a água escolhe passear pelo seu rosto. Você odeia banho até entrar nele, filho. Acho que eu era assim. Era, mãe? Talvez esse ano também não esteja preparado para enfrentar esse momento quase-doloroso, mas penso que é o único jeito. 2015 precisa de um bom banho para terminar. Frio. Deixar o ralo beber as decepções. O chão inundar um dedo de altura com as frustrações. As paredes suarem gotas de saudades do que perdemos.

A uma certa altura do banho, você esquece que nem queria entrar. Começa a conversar animadamente sobre a tarde que virá. A casa de Dario, seu amigo-craque. Que alegria receber um convite assim. Começa a falar sobre a vinda das suas avós, do seu avô, da sua tia. Lembra que o pedido feito para Papai Noel já foi atendido, o campinho gramado, feito à mão e coração no quintal. Pergunta se mandei a foto do Carlitos pintado no muro para seu avô. Diz que a viagem para Goiás vai ser divertida, que não vê a hora de pegar a estrada. Fala que essas férias vieram para você me ensinar a jogar Minecraft – preciso mesmo aprender. E fala, conta histórias, ri, pensa, fala mais, pergunta (e pergunta e pergunta e pergunta – mas nem espera que eu responda, faz isso sozinho). Apenas escuto, por um longo tempo, as suas palavras molhadas de alegria. Para quem não queria entrar no banho, sair é que é mesmo difícil. Preciso insistir.

Agora é sua vez, 2015. Vai lá. Entra no chuveiro que daqui a pouco trago sua toalha.

 

Do seu pai,

Pedro.